Oscar 2015: Sniper Americano


Indicações: filme, ator (Bradley Cooper), roteiro adaptado, montagem, edição de som e mixagem de som


Filmes de guerra precisam de uma boa razão para serem feitos ou viram puro panfleto ideológico. Mostrar o horror dos conflitos e os efeitos psicológicos de uma experiência traumática são bons exemplos, e Sniper Americano atira (com o perdão do trocadilho) em ambos. Mas não acerta nenhum. A história de Chris Kyle, considerado o atirador mais letal da história da marinha americana, sofre com essa falta de definição e não consegue formar um retrato mais contundente do personagem. A crítica velada ao patriotismo cego acaba anulada pelos elementos que exaltam o herói. Neutralidade intencional? Talvez, mas uma pergunta não me sai da cabeça: o que faz de Kyle um herói maior que seus companheiros?

Uma cena rápida do filme talvez contenha a "resposta": ao cruzar com o irmão, recém-convocado para a guerra, antes de voltar para uma de suas missões, o protagonista se mostra surpreso e até chocado ao ver que o caçula não queria ir. Pelo contrário, estava com medo, com raiva. O sniper não tinha dúvidas de seu propósito. O roteiro, aliás, deixa de lado a sutileza e afirma que seu comportamento é fortemente influenciado pela visão do pai, que ensina aos filhos que as pessoas se dividem entre indefesas ovelhas, lobos malvados e cães pastores, cuja função é proteger.

Sem direito a escolha, Kyle fica com a última opção - embora, curiosamente, tenha tentado a vida como caubói para conquistar mulheres num primeiro momento. Motivado por um ataque à embaixada americana e com a vida meio à deriva, decide se juntar às forças armadas. Em pouco tempo, ainda em sua primeira missão no Iraque, torna-se O Mito, pela exímia pontaria e pelo número de vítimas. Ganha o respeito e a admiração dos colegas, mas se transforma também em um estranho em casa. 

Seu lugar de conforto é na batalha, onde, tal qual um robô, repete infinitamente que deseja salvar a vida dos companheiros. Enquanto não está lá, não consegue se dedicar à mulher, Taya (Siena Miller), e aos filhos. E é aí que ele se diferencia de tantos veteranos com estresse pós-traumático já retratados no cinema. Enquanto, normalmente, ex-combatentes precisam se livrar dos fantasmas para retomar a rotina, ele não quer nada disso. Somente sente ansiedade e impotência por não poder se juntar a seu pelotão.

O sofrimento da família é o único contraponto que sugere algum tipo de egoísmo do protagonista. Mas é possível que os americanos mais patrióticos possam enxergar justamente o contrário e culpar Taya por reclamar tanto da ausência do marido. No entanto, o discurso do atirador apenas repete a lógica (?) da guerra: salvar, eliminar o inimigo, proteger o "melhor país do mundo", como ele afirma a certa altura. 

Já os iraquianos são homens quase sem história, sem nome, sem família, são ameaçadores, perigosos, impiedosos. São os outros. Então a decisão de matar só é difícil quando se trata de uma mulher ou uma criança? O filme cai nessas armadilhas, que são um desserviço para uma cultura extremamente bélica como a americana e que se estende por outros países também.

Fora isso, no que se refere à construção da narrativa, o longa consegue construir bons momentos de tensão e fortes sequências dramáticas, com Siena Miller e Bradley Cooper bastante inspirados. E aqui cabe um comentário sobre terceira indicação seguida do ator, não muito respeitado pelos críticos e mais identificado com as comédias e produções românticas. Cooper é um ator mediano, que definitivamente não merecia ser indicado pelo pretensioso Trapaça ou pelo irregular O Lado Bom da Vida. Mas aqui, sob a batuta de Clint Eastwood, se sai muito bem, sem apelar para exageros, e contrói um Chris Kyle contraditório e crível.

O fato de Eastwood ter assumido a direção após a saída de Steven Spielberg do projeto, por conta do modesto orçamento da produção, me deixa com a impressão de que o longa ganhou mais força no lado humano da história, embora as sequências de ação sejam conduzidas com competência. Ainda assim, Sniper Americano fica devendo uma resposta para a pergunta feita no primeiro parágrafo. Porque ser uma máquina mortífera (eficaz, focado e sem medo) não é suficiente para alçar alguém a um posto especial em uma situação como a guerra, onde só existem perdedores.

No próximo post: Whiplash
Giselle de Almeida

Um comentário:

Caro Morrison disse...

Para mim, este filme é muito bom, é as Melhores filmes HBO que eu encontrei . Eu não tinha nenhuma chance de vê-lo nos filmes, mas quando eu descobri que eu gostei bastante HBO e especialmente porque Bradley Cooper é o ator principal