O triste fim de Dexter Morgan


(Aviso de spoilers. Milhões de spoilers)


A despedida foi melancólica. Se você é persistente como eu e acompanhou Dexter até o fim, é porque ainda tinha uma esperança de um desfecho minimamente satisfatório para a série. Mas o rumo dos acontecimentos nos últimos anos e nesta temporada final, em especial, já nos dava pistas de que não adiantava torcer muito por um milagre. A receita que deu tão certo lá atrás havia mesmo desandado.

A oitava temporada tinha um bom ponto de partida: as devastadoras consequências da morte de LaGuerta (Lauren Vélez), um momento forte que mudaria para sempre a relação entre Debra (Jennifer Carpenter) e o irmão. Ela, uma policial competente e justa, havia cruzado a linha que faltava ao apertar o gatilho para defender Dexter (Michael C. Hall) e acobertar seus crimes. A decisão que ela havia protelado ao máximo foi tomada num momento extremo, em que a emoção falou mais alto. O problema é que isso não seria suficiente para amenizar sua culpa. Depois de um salto no tempo, a série mostrava que Deb reagiu mal a tudo isso: abandonando a Miami Metro, bebendo como se não houvesse amanhã e arriscando a vida a trabalho, agora como detetive particular. Ah, mencionei que ela se afastou do irmão? E boa parte dos episódios seguintes gastou um precioso tempo para mostrar a relativamente fácil reconciliação entre os dois.


A maior pegadinha desta temporada, no entanto, é o surgimento da doutora Evelyn Vogel (Charlotte Rampling). Ela é introduzida na trama como alguém que tem um papel importantíssimo na vida do protagonista: foi ela quem sugeriu a Harry (James Remar) que ensinasse o código ao filho com instinto de serial killer. Seria ela então uma mentora, uma mãe postiça. Embora forçada, a referência à origem de tudo (foi o trauma de ver a mãe assassinada que teria despertado a psicopatia dele) poderia ser interessante. Como também seria se Vogel deixasse de ser uma personagem ambígua para se revelar uma antagonista, que poderia estar manipulando Dexter para conseguir o que quer ou simplesmente horrorizada com a personalidade que ajudou a formar. Criador versus criatura. Taí, eu gostaria de ver esse conflito frankensteiniano como o conflito final da série. 

Mas por que seguir a opção mais simples se podemos trazer mais e mais personagens para serem mortos no caminho? Assim foi com Zach (Sam Underwood), cuja trama foi muito mal aproveitada, com Cassie (Bethany Joy Lenz), jogada como isca no meio da história de forma pouco sutil, com a própria Vogel e... seu filho! Oliver Saxon/Daniel Vogel (Darri Ingolfsson) foi o truque mais barato da temporada (e aqui é clara a sugestão de um outro link com a origem de tudo, Brian Moser, o irmão de sangue de Dexter e o primeiro grande vilão da série). No entanto, adiar a entrada dele até os últimos episódios nos privou de termos um oponente de verdade a maior parte do tempo. Na busca por reviravoltas e surpresas fáceis, a atração perdeu muito de sua força dramática, que sempre foi seu ponto alto. 

É só puxar pela memória para entender que sem Brian, o Ice Truck Killer (Christian Camargo), na primeira, e Lila (Jaime Murray), na segunda temporada, por exemplo, a série não teria alcançado níveis tão elevados de tensão. Mas foi mesmo com Trinity (John Lithgow), no quarto ano, que o programa chegou ao seu auge, numa temporada absolutamente irretocável, com direito ao final mais chocante e doloroso que podia ter. Pena que dali por diante foi ladeira abaixo. O fanatismo religioso e a descoberta de Deb movimentaram um pouco a sexta temporada, e a ameaça de La Guerta sugeriam uma luz no fim do túnel, mas o estrago já estava feito: as tramas e subtramas foram se tornando cada vez mais fracas.


Como se tudo não pudesse piorar, na reta final, os roteiristas resolvem trazer de volta umas das personagens mais insossas da atração, Hannah McKay (Yvonne Strahovski), para um revival romântico pouco convincente com o protagonista. Em vez de se vingar por ter ido para a cadeia por culpa do ex, ela quer que Dexter mate seu atual marido e quer construir uma vida nova ao lado do amado na Argentina (e pelo número de vezes que o país é mencionado nos episódios finais, deve ter rolado um patrocínio do ministério do turismo hermano). Hummm... Dexter comendo alfajor e empanadas no Caminito? Não sei vocês, mas eu não esperava um final assim para ele. Só que podia ser melhor do que foi. A longa despedida de Deb no hospital já dava a dica do que estava por vir, mas nem Shonda Rhimes seria capaz de criar uma situação como aquela: um derrame inesperado e, ainda por cima, uma tempestade. 

Não vou dizer que não foi curioso ver Dexter se emocionar de verdade pela primeira vez antes de matar alguém (e Deb estava imóvel, numa cama, como costumam estar suas vítimas), mas roubar o corpo da irmã e jogá-lo no mar como se fosse o de um criminoso qualquer não fez o menor sentido. Fingir a própria morte e se exilar para poupar o sofrimento das pessoas que ama seria compreensível se ele não estivesse deixando Harrison nas mãos de uma assassina confessa (que anda com uma seringa na bolsa tal qual Lívia Marine) num país estranho. Cada vez mais ligado ao filho, principalmente depois da morte de Rita (Julie Benz), é pouco provável que ele tomasse essa atitude. E a cena final, que deveria transmitir solidão, sofrimento, arrependimento, alívio ou qualquer outro sentimento, não diz nada. Claro, tudo poderia ser bem pior se a série não tivesse um elenco tão talentoso. Mas o fato é que o grande dilema do personagem, desde o início - seria possível para ele ter uma vida normal? - foi respondido da forma mais preguiçosa possível. Como eu disse, a despedida foi melancólica. Mas não do jeito que deveria ser.


P.S.: O melhor comentário que li sobre o fim de Dexter foi esse, do Huffington Post:

If only the producers had dispatched their show with the care their murderous hero showered on his victims.

Giselle de Almeida

9 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com cada palavra desse texto, fiquei bem insatisfeito com o final da série, acho que poderia ser melhor...Não fez sentido nenhum ele matar a irmã e depois tentar se matar e pior ainda, não conseguir...

Cicera Guedes disse...

Gostava da serie ate q o autor veio e detonou c os Astros principais da serie odiei o que ele fez c a deb no final e comecei a odiar o dexter a partir da 7 temporada uma merda q o autor fez c ele gostava mas fiquei c Tanta raiva q nem assistir Mais pq p mim virou todos os palavroes q sairam da boca da deb durante tds as temporadas. Cmo podem fazer isso c agnt fazer as pessoas amar e odiar os Astros da serie. Uma coroa de espinhos p autorez ou melhor uma caneta p eles nunca mais escreverem. Est muito chateada c o desenrrolar da serie.

Giselle de Almeida disse...

Pois é, quando a gente segue uma série por tanto tempo é normal se sentir frustrado desse jeito quando resolvem chutar o balde. Eu prefiro considerar Dexter como uma série ótima de quatro temporadas (e ignorar o resto)...

Alex Tattoo disse...

Adorei se post, mesmo não concordando com ele totalmente.... but whatever.
Bacana seu blog, me identifiquei muito com você. bjao.

makalo disse...

Foi mais um épico na produção de um canastrão como dexter, mais um dos grandes serial killer's do cinema, começou como um serial, no decorrer um justiceiro, bandido, com um humor negro fantástico, hora comico, hora muito mal, desastrado, descuidado, e o texto, hora fantastico hora dava uma rotina esperada, mas o nosso personagem sempre a ser explorado melhor, que ficou no final a desejar, trinithi foi um outro marco na sua carreira de serial killer. Terminei de assistir só agora por não ter tido tempo de velo, ficando assim um final onde teve que tirar a dor de deb com consequências causadas por ele mesmo, tendo que se afastar de hanna e de morgan que foram morar na argentina, ficou o final uma deixa para que tenha sequência e espero um texto e um desenrolar melhor para dexter morgan.

Unknown disse...

Olá, Gisele. Comecei a achar que o filho dele ia matar ele. Depois, vi que o filho continuava pequeno, então não seria assim o final, depois veio aquela mãe emprestada que tinha um filho pior que o Dexter e ainda acerta a Deb, não mata de imediato, esta tudo bem , de repente uma morte cerebral súbita da Deb e a vingança de Dexter. Mostrou que ele deixou de ser monstro e se tornou humano, mas mesmo assim desistiu do filho, Achei horrível o final. Quando vi Dexter mexendo nas toras de madeira, pensei é o filho que virou serial killer tb, mas não era o próprio Dexter. Acho que mereceria mais um episódio onde consertasse algumas coisas. Deveria produzir algum tipo de satisfação em nós públicos ativos. E não ficar no ar como ficou, parecendo que falta alguma coisa. Grato, Randolfo.

Joelma Moreira disse...

Pois é .... Estava há dias assistindo Dexter e parei exatamente hoje na sétima temporada depois que ele se envolve com a Hanna. Depois de ler os spoilers parei .... Triste uma coisa que estava dando tão certo ter virado uma grande merda. Depois que Rita morreu a série deveria ter mudado de nome "As aventuras de Dexter". Daqui por diante saberei quando parar de ver uma série.... Lamentável...

Anônimo disse...

Fiquei super decepcionada com o final da série. Não esperava que hannah continuasse solta, ela foi uma das piores personagens da série, sem contar que foi ridiculo dexter ter deixado harrison com ela. E pq diabos ele não deixou debra ter um enterro digno? Pqp, a partir do momento em que ele conheceu hannah tudo ficou uma MERDA!

Shara Prado disse...

Eu não consigo descrever o quanto fiquei decepcionada com o final da série. Primeiro eu achei que ele realmente mudaria e resolveria criar o filho do lado de uma pessoa que soubesse da história dele e ao mesmo tempo o entendesse.Depois comecei a achar que ele iria se matar para não fazer ninguém sofrer, mas quando chegou realmente o final. Gente, ele continuou como se nada tivesse acontecido...