Quem, eu?

Giselle de Almeida. Viciada em cinema e séries de TV, apaixonada por música e literatura, fã de cultura pop. Não necessariamente nessa ordem. ;) (+)

Postado por Giselle de Almeida em 25.2.12

Indicado nas categorias: atriz (Rooney Mara), fotografia, montagem, edição de som e mixagem de som


Os fãs de David Fincher se rasgam em elogios e juram de pés juntos que o remake é superior ao original - afirmação que tem muito valor, pois se trata de uma façanha rara. Mas a versão americana e a sueca de Millennium - Os homens que não amavam as mulheres guardam mais semelhanças do que se diz por aí. E, justamente por isso, essa refilmagem, lançada tão pouco tempo depois do primeiro longa, só tem uma justificativa: catapultar a carreira de Rooney Mara. Talvez seja necessária uma consulta ao Google para associar o nome à pessoa: a atriz é a mesma pessoa que arrasou o coração de Mark Zuckerberg em A rede social, do mesmo diretor. Irreconhecível, ela agora encarna com propriedade Lisbeth Salander, a famosa protagonista da trilogia Millennium, best seller de Stieg Larsson.

O principal desafio de Mara era criar uma personagem com personalidade própria, já que a atuação de Noomi Rapace tinha sido marcante no filme escandinavo. Mas isso não pareceu um problema: enquanto a sueca emprestou à hacker gótica uma raiva visceral de quem tem contas a acertar com o mundo todos os dias, a americana prefere um caminho mais sutil, de quem já se acostumou à sua condição de outsider. Sua Lisbeth tem conflitos, mas eles ficam bem mascarados sob sua aparência pouco usual, sua postura reticente, seus olhos baixos, seus ombros encolhidos, suas poucas palavras. Estranha, seria a palavra. E é nessa estranheza que reside a originalidade da história. O que resta é uma trama policial com altas doses de violência.


Contratada por uma firma de investigação particular, Lisbeth começa a vasculhar a vida do jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig, apagado a maior parte do tempo), recém-condenado pela Justiça depois de uma polêmica reportagem acusando, sem provas, um importante empresário. Mas os caminhos dos dois só vão se cruzar de verdade bem adiante, quando ela o ajuda a desvendar um misterioso crime: o desaparecimento de uma jovem de 16 anos, em 1966. Atormentado pelo caso sem solução há quatro décadas, Henrik Vanger (Christopher Plummer) é quem incentiva essa tardia busca por respostas.

Fincher tem estilo, e isso fica claro em suas escolhas estéticas: a trilha sonora alternativa, a fotografia acidentada, cenários cobertos de neve... Tudo contribui para criar uma atmosfera pouco amigável. Mas o roteiro de Steven Zaillian também segue esse caminho e constrói uma trama tão fria quanto Hedestad. Todo sinal de afetividade que havia no livro ou no filme original foi devidamente limado. Um bom exemplo é a ligação entre Blomkvist e a vítima na infância, que poderia ser entendido como um dos motivos que levaram o repórter a aceitar a proposta de Henrik de largar tudo em Estocolmo e se dedicar exclusivamente a descobrir o paradeiro de Harriet. 


Motivação, aliás, é um dos grandes problemas do roteiro. Apesar de o filme ser longo (são 158 minutos de projeção), Zaillian e Fincher têm tanta pressa para chegar às ações que as razões dos personagens são quase sempre pouco convincentes ou mal explicadas. Não seria de bom tom explicar que, além de falido e desmoralizado publicamente, o jornalista estava condenado à prisão? E que conseguir provas contra Hans-Erik Wennerström (Ulf Friberg) seria seu passaporte para a liberdade, mais até que uma vitória moral? E que tal a justificativa para Lisbeth se juntar à investigação? No momento em que faz uma descoberta, a primeira no caso em 40 anos, Mikael decide: "Preciso de uma assistente", diz ele. "Tenho uma em mente", responde o empregado de Henrik. Parece crível?

É curioso também como o remake recria muitas passagens do longa de Niels Arden Oplev com fidelidade, inclusive as fortes cenas de estupro e vingança, ao mesmo tempo em que modifica alguns acontecimentos importantes, incluindo o clímax e o desfecho. Não deveria ser o contrário? Fiel à essência e original na forma de contar a mesma história? Mas basta uma montagem mais ágil e moderninha para muitos se darem por satisfeitos. Ao menos os produtores merecem créditos por manterem a Suécia como cenário, em vez de transportarem a trama para alguma cidade americana. Aí já seria um pouco demais.

 

No próximo post: O homem que mudou o jogo

Postado por Giselle de Almeida em 25.2.12



Extra, extra! Interrompemos a nossa maratona (que vai até amanhã) para participar do Bolão do Oscar promovido pelo DVD, sofá e pipoca. Para não ficar de fora, vou antecipar aqui meus palpites para a premiação de amanhã e, de quebra, revelar meus favoritos nas principais categorias. Como ainda não arrumei um vira-tempo, esse ano não dei conta de todos os filmes indicados, e em alguns momentos vocês vão ver uns belos chutes. Mas sou honesta, assumo quando não tenho a menor ideia do que estou falando, vocês vão ver! E nas categorias mais técnicas, fico apenas nos palpites. Combinado?

Postado por Giselle de Almeida em 17.2.12

Indicado nas categorias: filme, diretor (Martin Scorsese), roteiro adaptado, trilha sonora original, efeitos visuais, fotografia, figurino, direção de arte, montagem, edição de som e mixagem de som


Sinceramente, chamar A invenção de Hugo Cabret de filme infantil parece mais uma equivocada estratégia de marketing do que qualquer outra coisa, o que, infelizmente, pode afugentar os telespectadores mais crescidos. Apesar de seu protagonista ser uma criança, o longa de Martin Scorsese é, na verdade, uma aventura mágica e envolvente. E para embarcar nessa viagem não há limite de idade, apenas um requisito: amor incondicional pelo cinema.

Postado por Giselle de Almeida em 16.2.12

Indicado na categoria: longa-metragem de animação


Os traços são simples e até imperfeitos. Os diálogos não fazem referências à cultura pop. O protagonista não tem qualidades humanas. Não há um coajuvante cômico. E o filme é falado em francês. Um gato em Paris não tem muitas das características que se tornaram praticamente uma regra desde que estúdios como Pixar e Dreamworks se tornaram (merecidas) referências no setor. O longa de Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol é representante da forma mais tradicional de animação e não tem pretensão de ser cult. Seu ingênuo roteiro sugere que seu público-alvo seja mesmo o infantil, embora os adultos possam vê-lo sem medo. E é ótimo saber que ainda há espaço e reconhecimento para produções como essa.

Postado por Giselle de Almeida em 15.2.12

Indicado nas categorias: atriz (Meryl Streep) e maquiagem


Se o objetivo era realizar uma produção para Meryl Streep concorrer com boas chances ao Oscar, os produtores de A Dama de Ferro já podem se dar por satisfeitos. Mas se a intenção era construir um retrato minimamente fiel de Margaret Thatcher, podemos dizer que o longa fracassou. Porque impressionar os espectadores (e a Academia) com uma personagem conhecida, breves referências históricas, políticas e econômicas e uma caracterização marcante é fácil. O difícil é tentar escapar das dificuldades de uma cinebiografia sem cair num filme sem rumo nem personalidade.