Como dizer adeus a Breaking Bad?


(Preciso avisar dos spoilers?)


Vince Gilligan conseguiu: Breaking bad atingiu 99,1% de pureza e fez todas as outras séries no ar parecerem trabalho de principiante. Não me lembro de ter visto um programa tão forte, tão bem conduzido, tão bem pensado e tão bem realizado em muito tempo. Aliás, nem Walter White conseguiria fabricar um produto tão viciante. Sem querer parecer exagerada, o nível da TV caiu um pouco mais hoje, que vivemos numa era pós-BB.

"Felina", o derradeiro episódio, faz jus a tudo que vimos (e aprendemos a gostar) ao longo de cinco impecáveis temporadas. Depois de um período de incertezas e hesitações, tivemos de volta o Walt determinado, assustador, manipulador e brilhante de outros tempos. Com uma diferença importantíssima: numa cena de uma simplicidade ímpar, ele revela aquilo que já sabíamos há muito tempo e que somente ele não admitia. Ele não fez tudo que fez pela família, mas por ele mesmo: "Eu me senti vivo". Está aí, nessa frase curta, a razão para tantas mentiras, tanta tristeza, tantas mortes, tanto desespero. Um homem em crise de meia idade e à beira da morte que sentiu que podia controlar a própria vida e que podia exercer algum poder ao se tornar o rei da metanfetamina em Albuquerque, New Mexico. E, de quebra, poderia ganhar alguns milhões ao utilizar seus conhecimentos científicos. Simples assim.

Sugerida já no piloto, a transfiguração do outrora pacato professor de química Walter White (Bryan Cranston) no temível Heinsenberg deu-se lentamente, episódio por episódio. Como é natural afeiçoar-se ao protagonista, procurei ver o lado bom dele até o último momento, mas em determinada altura, suas atitudes se tornam absolutamente indefensáveis. Forjar uma perda de memória, deixar uma jovem morrer de overdose, envenenar uma criança, usar o câncer para manipular o próprio filho, armar para o cunhado levar a culpa de seus crimes, sequestrar a caçula, um bebê de colo... Nenhum sentimento supostamente mais nobre seria capaz de justificar tamanha crueldade. Por isso a revelação final de Walt para uma Skyler (Anna Gunn) já exausta de tantas desculpas é tão reveladora: o monstro estava ali dentro desde sempre.


Era fácil imaginar um final trágico para Walt. A prisão seria moralista demais, e um desfecho feliz não seria condizente com a trajetória do personagem. Mas foi até poético: ele morreu depois de conseguir o que queria, deixar o dinheiro para a família e de ter uma semidespedida, e após consertar, em parte, o último mal que causou a Jesse (Aaron Paul). E o fim chegou no lugar onde se sentia mais realizado: no laboratório, lugar onde dominava, e não era dominado, lugar que lhe deu fama, glória, respeito. O sorriso de satisfação ao pegar a máscara pela última vez chega a ser comovente. 

Walt escreveu a própria história e ainda se vingou de seus últimos oponentes, Todd (Jesse Plemons) e Lydia (Laura Fraser) com certa facilidade, provando que sempre esteve um passo a frente de todos eles. Durante toda a série, Cranston fez um trabalho magnífico: nos momentos mais terríveis de seu personagem, era possível ver lampejos da doçura de Walt, e vice-versa. Na reta final, quando as adversidades ficam mais e mais frequentes e ele precisa admitir a derrota, o ator o transforma num ser digno de pena (é duro ouvir do filho que ele espera que você mora). Mas quando o protagonista decide dar sua cartada final, volta a ser fascinante.

Eu temia pelo destino de Jesse, talvez a maior de todas as vítimas de Walt. Era bem provável que ele fosse dragado para o inferno de vez, mas a cena da liberdade me surpreendeu e emocionou mais do que poderia imaginar. Impossível deixar de pensar que as cicatrizes que ele agora carrega talvez não o tenham ferido tanto quanto as marcas psicológicas provocadas por seu antigo mentor e o círculo vicioso que ele trouxe consigo. Daí o alívio de vê-lo partir com um sorriso no rosto e alguma esperança na alma. E é preciso dizer que Aaron sempre teve um excelente desempenho neste personagem com tantos altos e baixos emocionais, mas este ano ele estava especialmente inspirado. A performance que ele entregou é tão impressionante que, se não ganhar o Emmy em 2014, alguém vai precisar rever para que serve esse prêmio. 



No excelente "Confessions" (s05e11), o abraço dos ex-parceiros simbolizava toda a relação conflitante entre os dois durante a série: professor e aluno, pai e filho, algoz e vítima. O desabafo de Jesse, que temia ser morto mas também sofria por estar sendo enganado, foi de partir o coração. Poucas vezes uma cena disse tanto com tão pouco. "Felina" também tem um grande momento entre os dois, no último confronto entre eles. Jesse se faz de forte, mas não tem coragem de atirar porque sabe que Walt, de certa forma, se sacrificou por ele. O olhar cúmplice dos dois antes do silencioso adeus diz mais do que esse texto seria capaz de traduzir. E assim foi durante boa parte da série. Salvo raros escorregões, a grande maioria dos episódios trouxe tudo que a dramaturgia de qualidade precisa: atuações soberbas, diálogos precisos, uma direção competente, fotografia excepcional e uma edição com precisão cirúrgica, além de personagens fantásticos como Hank (Dean Norris, excelente) e Saul Goodman (Bob Odenkirk, divertidíssimo).

É difícil acreditar que acabou. Minha relação com Breaking bad foi curta, porém intensa. Descobri tardiamente uma série muito acima da média em vários aspectos e agora vou precisar aprender a lidar com isso. Acho que o jeito vai ser encontrar defeitos em todas as outras, porque o meu padrão de excelência mudou. Acredito que, se uma série consegue te fazer enxergar a TV com outros olhos, é porque algum mérito ela tem. E se for capaz de te fazer viciar como eu viciei (sem trocadilhos, por favor), é porque é especial. Que Heinsenberg não nos ouça, mas o nível de pureza deve estar pertinho dos 100%.
Giselle de Almeida

2 comentários:

Julio Cruz disse...

Muito bom o post. Breaking Bad é e sempre será (eu acho) a minha série predileta!

Dorival disse...

FInal deprimente ! sobretudo nos 3 ultimos capitulos, nem parece escrito pela mesma pessoa, o filho chamando Walter de "maldito", a briga de faca com a esposa, claro ...Walter White era um traficante, um bandido...mas a coisa se tornou um dramalhão mexicano ridiculo ! totalmetne sem sentido nem valor artistico, o mesmo que acompanhou toda 5 temporada, acabou em um moralismo de baixo nível e desconectado com a realidade.
O que também parece estranho é ver gente como a esposa de walter e sua irma critica-lo duramente, justamente elas que infrigiran a lei, a esposa ajudando o AMANTE com 600 mil após ajuda-lo fraudar o governo, e sua irmã que roubava joias em lojas, todos delitos IGNORADOS ! e NÂO PUNIDOS ! justamente elas se portando como portadora da moral a ponto de chingar walter ...ridiculo ! o final foi penoso, ruim de ver ... desconectado da realidade... e pra terminar , walter constroi uma maquina robotica especial que abre o porta malas do carro e sai atirando...quem acredito nisto ? ele é quimico e nao engenheiro ... 3 ultimos capitulos deprimentes, e fracos ...