Força sempre



O timbre de Bruce Gomlevsky não se parece com o de Renato Russo. Olhando de perto, diria até que eles são diferentes fisicamente. Mas quem liga? Falando e atuando, em cima do palco, Bruce simplesmente é Renato - nos gestos, no jeito de falar, no visual. Impressionante. O espetáculo Renato Russo, que reestreou ontem num Canecão vazio, é emocionante e de bom gosto.

A peça conta a história do cantor e compositor desde os 15 anos até a sua morte. O texto foge de óbvio e funciona muito bem. Bruce, acompanhado de uma banda ao vivo, dá um verdadeiro show. E as músicas... Bem, só ouvir (e cantar junto) as músicas da banda já valeram a noite. Ainda mais pra mim, uma fã tardia da Legião, que conhecia o que tocava na rádio. Quando Renato morreu, eu tinha só 12 anos, mas me lembro bem das entrevistas e das apresentações da banda na tv. Uma das minhas frustrações foi nunca ter assistido a um show deles. Agora não dá mais. Mas deu pra matar um pouquinho a vontade ontem.
Giselle de Almeida

A propaganda é a alma do negócio


Um trailer bem feito é mais do que uma simples propaganda, é um produto à parte. É um aperitivo do que o filme vai apresentar, tem que deixar um gostinho de quero mais. O tempo é curtíssimo para dizer ao espectador que vale a pena ir ao cinema, enfrentar fila, comprar pipoca e aturar gente falando alto na poltrona ao lado. E a edição é o que faz toda a diferença: é um dos casos em que menos é mais (agora, de cabeça, me lembrei do trailer do remake de A profecia, uma única cena, a do garotinho no balanço. Sinistro).


Comecei essa discussão toda porque o trailer de 1408, que vi antes da sessão de Tropa de elite, me decepcionou muito. Não sei vocês, mas eu gosto de ser surpreendida, ainda mais se tratando de uma história de suspense. Eu ia ver de qualquer jeito, porque John Cusack e Samuel L. Jackson no elenco já é meio caminho andado. Só que o trailer mostra demais - e aí eu fico com a sensação de que assistir ao filme não vai mais ter nenhuma novidade. Coisa irritante...

A trama, baseada numa história de Stephen King, lembra muito aqueles suspenses orientais de casas mal assombradas: Mike Enslin (Cusack) resolve se hospedar no quarto (adivinhem!) 1408 do Dolphin Hotel. Ele é avisado por Gerald Olin (Jackson) de que nada mais nada menos do que 56 mortes já aconteceram naquele lugar: "Ninguém durou mais que uma hora lá dentro". Óbvio que ele resolve descobrir na marra se tem alguma coisa de errado com o tal quarto. E aí... tchan, tchan, tchan, tchan! O trailer estraga tudo! Mostra tudo que a gente deveria só ter imaginado até ver o filme de verdade. Custava guardar uns sustinhos?

Giselle de Almeida

Burton novo pintando


Repare bem no pôster aí ao lado. A lâmina e o sótão podem até parecer familiares, mas não se trata de Edward Mãos de Tesoura. Qualquer semelhança, no entanto, não é mera coincidência. Afinal, Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street tem a assinatura de Tim Burton e a cara de Johnny Depp. Aí, dirão vocês: "Nenhuma novidade!" E eu respondo: "Ainda bem!".

O filme é uma adaptação de um musical da Broadway e conta a lenda de um assassino em série. Na história, pra lá de sinistra, o barbeiro Benjamin Barker adota o pseudônimo de Sweeney Todd e passa a cortar a garganta de suas vítimas; sua companheira, Mrs. Lovett, faz tortas de carne com o que sobrou delas. Argh...

O trailer já está disponível na internet. No elenco, a senhora Burton, Helena Bonham Carter, o maravilhoso Alan Rickman e Sacha Baron Cohen (ele mesmo, o repórter Borat). Duvido que o resultado seja de mau gosto. Afinal, o cara tem currículo. Conseguiua até fazer de A lenda do cavaleiro sem-cabeça um filme engraçado! Infelizmente, teremos que esperar até janeiro para conferir. É a data prevista para a estréia no Brasil. Nos Estados Unidos, chega aos cinemas em dezembro. Conto de Natal mais bizarro...
Giselle de Almeida

Festival do Rio 2007: a saga continua



O segundo fim de semana foi beeem mais produtivo que o primeiro. No sábado, não tive pique, depois de uma noite mal dormida e aula o dia inteiro. Mas no domingo, estava lá, firme e forte. E na segunda, também. Melhor do que o programado.

4 meses, 3 semanas e 2 dias
Pra começar o domingo, um filme nada leve. O longa romeno, premiado em Cannes, trata de um assunto delicado: o aborto. O enfoque é bem interessante - em vez de concentrar a narrativa na jovem que deseja interromper uma gravidez já avançada (como indica o título), quem assume o papel de protagonista é sua melhor amiga, com quem ela divide um quarto numa república de estudantes. É ela quem segura a barra o tempo todo, pega dinheiro emprestado, consegue hotel, faz o contato com o profissional. E a atriz se sai muito bem. O tema do filme é bastante forte, mas é abordado de maneira direta e corajosa.

Uma velha amante
Esse eu fui ver por influência da minha irmã, que queria ver um filme falado em francês. Aceitei ir, sem nem saber direito do que se tratava. É um filme de época, uma intensa história de amor entre um jovem francês, prestes a se casar com outra, e uma espanhola. Nada demais, serviu como passatempo mesmo. Difícil é acreditar que alguém se interessaria por uma mulher esquisita como aquela, mas o ator principal é um espetáculo!

Déficit
Meu segundo longa da Première Latina, estréia do ator mexicano Gael García Bernal na direção. Difícil é definir a história do filme (ou mesmo seu título): jovem reúne uns amigos para um churrasco em sua casa, se interessa por uma das convidadas e faz de tudo para que sua namorada não chegue ao local. Mais ou menos por aí. Algumas cenas são bem engraçadas, mas o filme não diz muito bem a que veio. Valeu mesmo pela presença do Diego Luna no Espaço de Cinema - ele não fazia parte do elenco, estava só como produtor. Fofíssimo, tirou foto com um monte de gente antes da sessão começar.

O banheiro do Papa
Esse entrou na minha lista aos 30 do segundo tempo. Descobri só no domingo que a programação do dia seguinte havia mudado: haveria uma sessão à tarde e eu estava de folga! Nem acreditei. Já tinha lido alguma coisa sobre esse filme, mas não tinha conseguido encaixá-lo na minha agenda. O filme, co-dirigido por César Charlone (fotógrafo de Cidade de Deus), bem poderia ser descrito como "Sou uruguaio e não desisto nunca!". Uma história linda, de gente humilde, que ganha a vida como pode, fazendo contrabando, atravessando a fronteira com o Brasil de bicicleta, sofrendo as maiores humilhações, mas que não perde a esperança. Próximo à visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, os moradores inventam maneiras de ganhar um trocado montando barraquinhas de comida para os visitantes. Beto tem uma idéia diferente: vai construir um banheiro e cobrar pelo seu uso. Mobiliza a mulher e a filha na empreitada e faz milhares de planos com o dinheiro que vai ganhar. Meu filme favorito do festival até agora.

La señal
Dirigido por um ator que eu adoro, o argentino Ricardo Darín (de Nove rainhas e O filho da noiva). Li uma entrevista em que ele dizia que seu longa era um policial noir, justamente porque nuestros hermanos não são lá muito chegados a filmes de gênero. E ele consegue reproduzir bem o clima desse tipo de filme: um detetive, uma mulher misteriosa, crimes, visual soturno. O roteiro não é nenhuma maravilha, diria que falta até um pouco de charme, mas é um bom exercício de estilo. Sem contar que o cinema argentino é meu xodó, não adianta...

E não é que o festival já está acabando? Mas amanhã ainda tenho mais uma sessão, no Odeon. Afinal, Festival do Rio sem sessão no Odeon não tem graça...
Giselle de Almeida