A gente vê cada coisa...


Sábado de manhã, metrô vazio. Estou eu distraída, escutando música, quando reparo numa mulher cuidando das unhas. Não, ela não estava usando a lixa, ela estava FAZENDO as unhas. É, pintando de vermelho e tudo. Vi inclusive quando ela tirou da bolsa um pauzinho de laranjeira, enrolou o algodão e mergulhou no vidro de acetona. Surreal.

Eu devia estar acostumada, eu sei. Ando de ônibus pra cima e pra baixo desde que me entendo por gente e, nesse tempo, deu pra perceber que acontecem as coisas mais bizarras em meios de transporte coletivos. Durante uma viagem de trem, certa vez, presenciei uma espécie de culto: além do pregador, outras pessoas ficavam cantando umas músicas bem alto, atrapalhando o nosso sono. Já vi festa de aniversário no ônibus, com direito a bolo, refrigerante e tudo; gente urinando com o veículo em movimento...

Nunca me esqueço também de um vendedor de descascador de legumes. Volta e meia eu pegava o ônibus do estágio pra faculdade e ele tava lá, querendo convencer os passageiros, de qualquer jeito, de que o produto era bom mesmo. Apoiava-se na roleta, e, sem se preocupar se estava atrapalhando quem estava entrando, fazia uma demonstração ao vivo, bem na nossa frente. Era um tal de descascar batata e cenoura ali dentro...

Eu devia estar acostumada, eu sei. Mas continuo me surpreendendo. Andar de carro não deve ter a metade da graça...
Giselle de Almeida

Menina muito má


Não se engane com essa carinha de criança. Ela é má, muito má. Depois de meia hora de filme, mais ou menos, ficamos até com peninha do vilão da história. Aliás, será que ele é mesmo vilão? A dúvida persiste até o fim do filme e esse é o grande barato de Meninamá.com. A gente sofre junto, mas não sabe se torce por um final feliz...

A adolescente Hayley e o fotógrafo Jeff, depois de conversas em salas de bate-papo, resolvem marcar um encontro. Na primeira conversa ao vivo e em cores, ele se surpreende com a maturidade dela, que tem só 14 anos. Depois de relutar um pouco, ele acaba levando a menina até a sua casa. E aí... caem as máscaras.

O elenco foi uma escolha mais que acertada: Ellen Page (a Kitty, de X-Men - O confronto final) dá show na pele de Hayley e Patrick Wilson é bem convincente como Jeff. Aliás, os dois têm que levar o filme nas costas, já que quase não existem personagens secundários. Também são poucos os cenários externos: a maior parte da trama se desenrola na casa de Jeff. Sufocante. Sem contar os diálogos, super bem escritos. Tente não se revirar na poltrona do cinema...
Giselle de Almeida

Tudo que é bom...


Pois é, o Festival do Rio já acabou e eu não consegui ver nenhum filme nacional, como sempre faço. Minha enorme lista, esse ano, se resumiu a uma única sessão: na hora de decidir entre O céu de Suely, de Karim Ainöuz, e Babel, de Alejandro González Iñárritu, fiquei com o segundo. Pelo menos, não me decepcionei. Tentei compensar minha frustração com outros filmes off-festival, comentados logo a seguir.


Babel
Em um lugar do interior do Marrocos, uma inocente brincadeira de criança acaba mexendo com a vida de uma família americana e, por tabela, de sua empregada mexicana. Ao mesmo tempo, no Japão, vamos acompanhando a rotina de uma adolescente surda-muda, que tem dificuldade de se relacionar com o pai. As indas e vindas nas histórias vão mostrando que elas estão, de algum modo, entrelaçadas.

Embora os rostos que chamem a atenção nos cartazes do filme sejam Brad Pitt, Cate Blanchet e Gael García Bernal, quem rouba a cena mesmo tem nome desconhecido, cabelos negros e lisos e olhos puxados. A japonesa Rinko Kikuchi, que vive a adolescente Chieko, acerta no tom e faz a gente sentir na pele o drama da sua personagem. Não que os astros hollywoodianos tenham decepcionado. Ao contrário, todos estão muito bem no filme, o que prova que Iñárritu é um ótimo diretor de atores. Mas numa história fragmentada como essa, Kikuchi se destaca do início ao fim, nas cenas em que explora a comédia e nas que mergulha no drama.

A estrutura não-linear do filme não é novidade nem acrescenta muito à história. Serve apenas para manter uma certa unidade com os filmes anteriores do diretor, Amores brutos e 21 gramas, que, segundo ele, formam uma trilogia. Algumas forçadas de barra aqui e ali não tiram a força do drama, mas o roteiro não é tão bem amarrado quanto deveria. A trama japonesa, por exemplo, fica um pouco solta. E Gael, bem, ele merecia um papel maior... :)


Dália negra
É um policial bacana, com visual caprichado, fotografia interessante e elenco cheio de estrelas. Mas não sei por que cargas d'água o roteirista acreditou que ficaria mais interessante com inúmeras reviravoltas no final, despejadas na velocidade de uma metralhadora. Sorry, mas não ficou. Desnecessário mesmo.


Obrigado por fumar
É um ótimo filme. Abusa da ironia para tratar de questões como hipocrisia, poder e manipulação, sempre com muito bom-humor. Aaron Eckhart está excelente como Nick Naylor, um lobista da indústria de cigarros que só falta ser crucificado pela opinião pública. Katie Holmes, a senhora Tom Cruise, faz uma participação que só comprova sua sem-gracice.


O diabo veste Prada
A história é bobinha e o final, todo mundo que já assistiu à Sessão da Tarde uma vez na vida, é capaz de adivinhar: jovem idealista aceita trabalhar como assessora da poderosa Miranda Priestly, editora de uma revista de moda, sonhando se tornar uma jornalista reconhecida. Podia ser mais provocativo, trazer mais bastidores do mundinho fashion, coisa e tal, mas é divertido. Não chega a comprometer a pipoca.

That's all, folks!
Giselle de Almeida