Wolverine é o cara (e o Magneto também)


Não adiantou a Halle Berry espernear e pedir mais espaço para a sua Tempestade. Também não adiantou a Jean Grey renascer de megahair e cabelo tipo vermelho-intenso-da-L'oreal. Quem rouba a cena em X-men - o confronto final continua sendo o Wolverine e o Magneto. E, teoricamente, eles nem são os protagonistas.

O clima na escola está pesado desde a morte de Jean. Scott anda pelos cantos, chorando pela amada, enquanto os outros vão tentando levar o barco. Num belo dia, Xavier sente que está acontecendo alguma coisa errada e manda Tempestade e Wolverine até o lago onde viram Jean viva pela última vez. E, por razões desconhecidas, lá está ela, apenas desacordada.

De volta à escola, Xavier explica que teve que bloquear parte dos poderes de Jean quando ela se tornou sua aluna, ainda menina. Esses poderes ficaram isolados em seu inconsciente e por isso ela desenvolveu dupla personalidade. Ninguém sabe se quem vai despertar agora é a Jean boazinha e chatinha de sempre ou a muito malvada Fênix Negra. Fora do instituto, outra descoberta causa alvoroço: o governo divulga uma forma de cura para os mutantes, a desculpa perfeita para Magneto iniciar sua tão sonhada guerra com os humanos.

Dos personagens novos, quem se destaca é o Fera, muito bem caracterizado. Já o Anjo decepciona: sua primeira cena promete, mas durante o resto do filme, não diz a que veio. Sem falar no Spike e no Groncho, que aparecem apenas de relance. Alguns da turma antiga também perderam destaque, como a Vampira. E o Noturno simplesmente sumiu!

As cenas de ação continuam muito boas, como nos primeiros filmes. Mas Brett Ratner, o novo diretor, trouxe à série algumas pitadas de humor, que caíram muito bem. É a mulher na ponte que baixa a trava de segurança do carro, é um piercing soltando fumacinha... pequenos detalhes que fazem a diferença. Já Bryan Singer, coitado, pode ter entrado numa furada. Ele desistiu de dirigir o terceiro X-men para conduzir Superman - o retorno. E o trailer deste é fraco, fraco...
Giselle de Almeida

Quando o passado bate à porta


O caçador de pipas, do afegão Khaled Hosseini, é um livro de memórias. Ficcional, mas bem que poderia ser autobiográfico. A cada página, o protagonista Amir narra suas lembranças como quem revira um baú antigo. Diante dos nossos olhos, surgem as ruas da cidade de Cabul de 1975, quando ele era apenas um menino de doze anos. Mas, numa tarde de inverno, acontece algo que vai marcá-lo para sempre. E mesmo agora, quase trinta anos depois, seu passado continua a atormentá-lo.

Hoje casado, escritor bem-sucedido, Amir adota os Estados Unidos como seu novo lar. Até que um telefonema lhe dá os motivos que faltavam para enfrentar seus medos. "É possível ser bom de novo", é o que ouve de um velho amigo. Seria uma chance de recuperar sua paz de espírito? Uma oportunidade de curar as feridas que nunca cicatrizaram?

Órfão por parte de mãe, Amir sempre se esforçou para corresponder às expectativas de seu pai, que não aceitava a covardia do filho nem entendia seu interesse pelos livros. O campeonato de pipas que se aproximava seria a chance de Amir conquistar a admiração que nunca teve. Bastava que ele mantivesse sua pipa no céu por mais tempo que as outras. Cortar a última delas e levá-la para casa seria seu grande feito. E Hassan, seu criado e também seu melhor amigo, foi buscá-la. Afinal, ele era bom nisso, o melhor de todos os caçadores de pipas. E sabia o quanto aquele troféu era especial para Amir: "Por você, faria isso mil vezes!".

Tudo muda, porém, a partir daquela tarde de inverno. Uma atitude transforma para sempre o destino dos dois meninos - um erro pelo qual Amir não consegue se perdoar e só vai ter a chance de reparar muito tempo depois, ao encontrar o menino Sohrab, um pedaço vivo do seu passado. Nesse retorno à sua Cabul natal, 26 anos mais tarde, Amir se sente um turista em sua própria terra: encontra um Afeganistão completamente devastado pela guerra e dominado pelo regime tirânico dos talibãs.

Ao mesmo tempo em que consegue dar nomes e rostos (ainda que imaginários) para as vítimas de uma violência que já dura décadas naquele país, O caçador de pipas é uma história forte e dolorosa. Uma história de pecados que não são perdoados, de amizades que não são abaladas, de distâncias que não são superadas: entre pessoas, lugares, culturas. Distâncias entre o menino e o adulto, entre o passado e o presente. Distâncias no tempo e no espaço.

p.s.: Blog é bom por isso, né? Essa resenha aí em cima ia entrar (numa versão ampliada) no jornal que a minha turma de jornalismo cultural na ABI está preparando. Mas não tinha espaço, entrou só a matéria sobre o livro. O jeito foi arrumar um cantinho pra ela aqui...
Giselle de Almeida