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Festival do Rio 2011: raspando o tacho

Não vai ser por falta de tempo (leia-se preguiça) que vou deixar passar em branco os outros filmes que consegui ver no festival este ano. Sim, a maratona foi mais modesta do que gostaria por motivos de força maior e alguns horários inacessíveis, como sempre. Mas ano que vem tem mais. ;)



Quando anoitece

O longa italiano, na verdade, não foi planejado. Entrou na grade na última hora, substituindo a sessão de 4:44 Last day on Earth, que foi cancelado do festival por problemas técnicos. O drama tem boas atuações e até que vai ganhando o nosso interesse com o desenrolar da trama, bem simplória por sinal: uma mulher que vai passar férias com o filho pequeno nos Alpes. Enfrentando dificuldades com a maternidade, ela encontra apoio no senhorio da casa onde está se hospedando quando passa por um momento difícil. Acontece que o clima de amor e ódio entre os dois não consegue manter a tensão durante o filme inteiro, além de não chegar a lugar algum. Melhor, chega sim: a um desfecho bem frustrante.

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A hora e a vez de Augusto Matraga

O vencedor do Troféu Redentor foi o único representante da Première Brasil a que consegui assistir, que vergonha. Ano que vem vou me dedicar mais à mostra, já está decidido. Mas o filme de estreia de Vinícius Coimbra foi uma boa escolha, afinal de contas. Segunda versão cinematográfica do conto de Guimarães Rosa,  o filme traz mais uma excelente performance de João Miguel, um dos grandes atores do cinema nacional, como o personagem-título nessa linda história de redenção do temido homem que conheceu a morte bem de perto e ganhou uma segunda chance nessa vida. Chico Anysio e José Wilker, como Joãozinho Bem-Bem, abrilhantam o elenco dessa espécie de western de sotaque bem brasileiro.

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Aqui é o meu lugar

Não é uma cinebiografia, embora Cheyenne (Sean Penn), um ex-astro do rock, tenha um quê de Ozzy Osbourne e Robert Smith. Não é um road movie, embora o personagem cruze o Atlântico ao descobrir que o pai, com quem não falava há 30 anos, acaba de morrer. Não é um filme sobre vingança ou sobre a Segunda Guerra, embora o que motiva tal viagem seja a busca pelo oficial nazista que torturou o pobre velhinho. Não é uma comédia, embora te faça rir o tempo todo. Difícil classificar a obra de Paolo Sorrentino, mas é possível dizer que é um drama com diálogos divertidos. Não que o roteiro seja brilhante: falta rumo, sobram arestas e o final é condescendente demais. Mas o grande trunfo é mesmo um protagonista tão despretensioso quanto cativante.

Festival do Rio 2011: We need to talk about Kevin

We need to talk about Kevin, de Lynne Ramsay. Com Tilda Swinton, John C. Reilly e Ezra Miller.


O argumento do livro que deu origem ao filme já é um soco no estômago. Quem é que imagina o autor de um massacre, acontecimento infelizmente tão comum nas escolas americanas e recentemente reproduzido num subúrbio carioca, como um ser humano? Mais fácil tachá-lo de monstro, de desalmado, de qualquer nome feio que lhe venha à cabeça na hora da tragédia. Normal reagir assim. Mas é mais aterrador ainda pensar que um sujeito capaz de tamanha atrocidade tenha tido uma família, um lar amoroso, educação, como eu e como você. São psicopatas, alguém vai dizer, pessoas sem sentimentos, mentes transtornadas, espíritos possuídos. Talvez. Mas mesmo que uma dessas teorias seja verdadeira, a verdade é que todos só se dão conta do que estava diante dos olhos quando já é tarde demais, quando há sangue derramado e quando não há arrependimento que seque tantas lágrimas.

Conduzido com competência e sensibilidade, We need to talk about Kevin, na verdade, é sobre a tensa relação entre o garoto e sua mãe, Eva, vivida pela sempre excelente Tilda Swinton, numa interpretação que tem cheiro de indicação ao Oscar. Desde que o filho era apenas um bebê, já demonstrava que ia dar trabalho. O choro incessante, estridente e enlouquecedor era menos insuportável que o barulho de uma britadeira. Zero de sossego, zero de laços maternais, zero de amor incondicional. Há algo de errado, e ela sabe disso. Os anos passam, e a situação só piora. A criança, já em idade de falar, não consegue se expressar verbalmente. Ou não quer, o que é um péssimo sinal. 


É um menino de personalidade forte, que não cede a nenhuma das investidas dela, na tentativa de se aproximar. A distância entre eles fica sempre muito nítida, mas é reforçada lindamente numa rápida alternância de planos entre os dois, num dos vários flashbacks que a história apresenta. Mãe e filho, um de frente para o outro, em silêncio, com seus corpos ligeiramente voltados para fora, tanto na sala de estar quanto na sala de visitas do reformatório. Sinal claro de falta de comunicação, que veio desde a tenra infância até a idade adulta. Não houve grandes mudanças desde então. Nesse ponto, é preciso dizer que a escolha do elenco para viver o protagonista em diferentes fases e a direção de atores não poderia ter sido mais acertada. Além de parecidos fisicamente, Rock Duer (o mais novo), Jasper Newell e Ezra Miller (fase adulta) conseguem nos convencer de que são a mesma pessoa, num papel bem difícil, que precisa despertar o interesse do público na mesma proporção com que causa repulsa.

Aos poucos, o que parecia ser algum distúrbio vai tomando ares de capricho com requintes de crueldade à medida que Kevin vai crescendo. Ao mesmo tempo em que repudia Eva, seu relacionamento com o pai, Franklin (John C. Reilly), é excelente. Marido exemplar, ele não entende a reação da mulher em relação às atitudes cada vez mais hostis do filho, levando o casamento para uma crise aparentemente insolúvel. Nem mesmo a chegada da irmã mais nova, Celia (a fofa Ashley Gerasimovich) consegue aliviar o clima. Ao contrário, é motivo de ainda mais preocupação. Usando eficientes elipses, Lynne Ramsay prefere apenas sugerir que o agora adolescente possa ter machucado a menina, e o resultado consegue ser ainda mais inquietante: a simples suspeita já causa revolta no espectador. Assim como o massacre não precisa ser mostrado para entendermos que estamos diante de uma tragédia para as famílias das vítimas e para a família do assassino.


Não é difícil entender o sofrimento dessa mãe, que mesmo depois de ter presenciado tudo isso (e tudo mais que o final perturbador nos reserva) e de sofrer todas as consequências dos atos que não cometeu, ainda vai visitá-lo depois de preso. São muito simbólicas as várias cenas em que a cor vermelha aparece durante a projeção, em especial a que ela tenta lavar a tinta que algum vizinho revoltado sujou sua casa. O close das mãos vermelhas é extremamente forte e significativo: suas mãos estão sujas de sangue. É assim que ela, Eva, nomeada como a mulher que cometeu o pecado original que deu origem a todos os males do mundo, se sente: responsável. É por isso que ela não reage quando leva um tapa na cara ao tentar seguir com sua vida: "É minha culpa". É por isso que até hoje ela carrega consigo a pergunta que nós também fazemos quando vemos uma notícia como essa nos jornais: "Por quê?". A resposta, obviamente, nunca será satisfatória.

Festival do Rio 2011: George Harrison, U2 e Ray Charles

Cumprindo promessa feita no ano passado, investi novamente em documentários na minha programação do festival desse ano. Coincidência ou não, todos musicais. Verdade seja feita, para a lista ficar completa, deveriam entrar aí Pearl Jam Twenty, As canções e Raul - O início, o fim e o meio. Sempre sofro com essas ausências, mas ainda não desenvolvi o poder da onipresença. Se alguém tiver tempo sobrando aí e quiser negociar, estamos à disposição. Finito o chororô, vamos aos comentários sobre os docs.


George Harrison: Living in the material world, de Martin Scorsese

Belo e emocionante retrato do ex-beatle. Era tanta história para contar, que Scorsese fez um filme de três horas de duração, dividido em duas partes. Mas o tempo passa num piscar de olhos diante de tantas entrevistas boas e de valiosas imagens de arquivos. Contando com ótimos depoimentos do próprio George e de amigos do músico, o diretor consegue traduzir com sensibilidade um pouco o que o músico pensava sobre a fama, os companheiros de banda, as mulheres, a música, a espiritualidade. Rimos quando Eric Clapton fala sobre o que passou na cabeça dele quando foi cogitado integrar os Beatles e vamos às lágrimas quando Ringo lembra as últimas palavras do amigo, que morreu de câncer em 2001. Imperdível.


U2: From the sky down, de Davis Guggenheim

Outro excelente documentário exibido no festival, o filme narra os bastidores da produção do álbum Achtung baby, que está comemorando 20 anos e que marca uma virada na carreira da banda, num momento em que a separação era uma possibilidade bastante concreta. Impressiona pela sinceridade e pelo bom humor dos depoimentos da banda. Bono, Adam, Larry e The Edge riem de si mesmos, fazem autocríticas, reconhecem erros e acertos e provam que artistas de verdade precisam estar sempre se renovando. O sucesso que fazem até hoje não é à toa. Além disso, acompanhar o processo de criação do grupo é um deleite para os fãs.


Rock Brasília, Era de ouro, de Vladimir Carvalho

Registro mais do que necessário sobre as principais bandas surgidas em Brasília na década de 80: Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Curioso como aqueles moleques, que viraram punks depois de passarem a ouvir Sex Pistols e começarem a tocar nos corredores da UNB, deram início a um fenômeno duradouro, apesar de despretensioso. Vale muito pelas entrevistas, sinceras e divertidas com os representantes desse movimento, como o de Philippe Seabra, da Plebe, que, em certo ponto da carreira, questionou as impiedosas regras que o showbiz impõe ao ver os Titãs "tocando num programa de TV ao lado de um papagaio". Os senões ficam por conta do formato tradicional até demais, sem maior preocupação criativa quanto à estética (uma animação é usada timidamente só em um ponto da produção), o que dá ao filme a cara de uma grande reportagem.


Ray Charles America, de Alexis Manya Spraic

Ao contrário do anterior, esse documentário é cuidadoso no visual e vazio de conteúdo. Com o objetivo de identificar o trabalho do artista com uma certa identidade americana, a diretora se apoia na obra do homenageado (literalmente, já que as canções são tocadas quase que ininterruptamente, num volume que quase se sobrepõe aos depoimentos) e o clima é de oba-oba, só com gente famosa falando, quando, na verdade, são entrevistas como a do seu camareiro que nos interessam: ele diz que o artista conhecia de cor todos os seus ternos, que eram devidamente numerados. "Se eu lembro as notas de duas mil músicas, posso lembrar cem ternos", dizia ele, que aprendeu a tocar graças à excelente memória, já que não conseguia ler as partituras. O espectador sente falta de histórias curiosas, que dão sabor a um filme como esse. Dizer que Ray era um gênio ou que seu talento venceu o preconceito é chover no molhado.

Festival do Rio 2011: Contágio

Contagion, de Steven Soderbergh. Com Matt Damon, Gwyneth Paltrow e Kate Winslet. 


Contágio não foge muito à regra dos filmes de epidemia que você já viu na vida (e que não devem ser poucos): uma boa dose de drama, um toque de alarmismos científicos, várias implicações políticas e uma tentativa de análise do comportamento humano na hora do desespero e da impotência diante da soberania da natureza, mesmo com toda a tecnologia de ponta a seu dispor. Steven Soderbergh consegue conduzir bem a história, contada com a ajuda de um elenco estelar (Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard e Jude Law), mas não espere grandes sopros de criatividade ou originalidade. Não há. Como entretenimento funciona, justamente porque segue direitinho a receita de bolo do gênero.

O roteiro de Scott Z. Burns até tenta sugerir uma certa engenhosidade deixando em suspense a origem da trama. O longa começa já no segundo dia de uma iminente contaminação de proporções mundiais. Sem saber que carregava um vírus mortal e, até então desconhecido, a empresária Beth Emhoff (Paltrow) desembarca de Hong Kong demonstrando os primeiros sintomas, que poderiam ser confundidos com a de uma gripe rotineira. Não demora muito para que ela transmita a doença ao filho e a outras pessoas, provocando, assim, uma silenciosa bola de neve. Em outros pontos do mundo, mais indivíduos infectados começam a surgir com uma rapidez impressionante, já que o contágio se dá num simples aperto de mão ou ao tocar uma maçaneta (pontos reforçados enfaticamente pelos inúmeros e incansáveis closes ao longo da narrativa). Por se tratar de uma enfermidade nova, com um número devastador de potenciais vítimas, o governo (americano, claro) entra em cena. 


Neste momento, espectadores bem treinados que somos, já percebemos que rumos as coisas tomam daí por diante. Sigilo para evitar o pânico da população, acusações de informações privilegiadas, teorias da conspiração, ataque às indústrias farmacêuticas. E o tal suspense do roteiro fica até meio esquecido nesse enorme emaranhado de tramas paralelas, que interessam mais pela carga dramática do que por algum suposto mistério. A personagem de Marion Cotillard, por exemplo, é mal aproveitada durante boa parte do filme para cumprir uma função só no terço final da projeção. Já o blogueiro metido a jornalista interpretado por Jude Law, em vez de ser o representante da sociedade nessa discussão toda, acaba sendo só uma figura folclórica (Ao menos ele provocou a melhor frase do longa, dita por Elliott Gould: "Escrever um blog não é escrever. É pichar com pontuação").

Apesar dos senões, o ritmo do filme é ágil, e as subtramas conquistam pelo interesse humano. Entre o numeroso elenco, Matt Damon e Kate Winslet merecem destaque. São eles que conseguem aproximar o público de toda a tensão contida naquelas situações tão fragmentadas. É com o drama do viúvo em choque, que ainda precisa ser um pai de família zeloso num momento tão difícil, que conseguimos nos identificar. É com a vida da médica superdedicada que nos importamos. É quando foca nesses microuniversos que Contágio atinge o efeito desejado, não quando derrama números estratosféricos em cada diálogo. Porque alarmismo qualquer filme-catástrofe de baixo orçamento faz, seja através da ameaça um minúsculo vírus ou seres de outros planetas armados até os dentes. Mas criar empatia e nos sensibilizar é muito mais difícil.


Festival do Rio 2011: Um método perigoso

A dangerous method, de David Cronenberg. Com Michael Fassbender, Keira Knightley e Viggo Mortensen
 

Mesmo com boas atuações, Um método perigoso não consegue ser mais que um filme correto. Pouco, muito pouco se levarmos em consideração de que a obra conta com a assinatura de David Cronenberg: o resultado fica bem abaixo do esperado. Atualmente em uma fase mais conservadora, o canadense continua explorando a questão da identidade humana, assunto recorrente em sua filmografia. O tema agora são os primórdios da psicanálise e a visão da sociedade sobre a sexualidade humana no início do século passado. Mas faltou paixão no debate e mais da personalidade do diretor na hora de contar essa história.

Carl Jung (Michael Fassbender) coloca em prática pela primeira vez os ensinamentos de seu mestre, Sigmund Freud (Viggo Mortensen), ao conhecer a jovem Sabina Spielrein (Keira Knightley). A "cura pela fala" é o método escolhido para livrá-la das frequentes crises nervosas que a acometiam. Ao mesmo tempo em que terapeuta e paciente desenvolvem uma forte relação afetiva e intelectual, Jung se aproxima de Freud. Mas logo as afinidades vão se tornando divergências. Primeiro, porque o pupilo oferece uma certa resistência à ideia de que todos os males da mente humana têm origem sexual. Além disso, o austríaco negava qualquer teoria que não fosse puramente científica e racional, considerando todo o resto crendices que deveriam ser desacreditadas.


Toda essa discussão, no entanto, é tão interessante no filme quanto um simpósio de psicanálise. Os protagonistas masculinos carecem de nuances que os afastem da simples caricatura, e o texto não ajuda muito nesse quesito. É nítida a influência da origem teatral no roteiro (baseado na peça "The talking cure", de Christopher Hampton), com longos diálogos e poucas ações que humanizem esses personagens. Jung, por exemplo, é construído como um teórico sem muita convicção e facilmente influenciável. Quando ele esboça assimilar todas as informações em um conceito, digamos, próprio, a discussão se encerra rapidamente. Isso tudo sem falar do mau uso de falas ligeiramente cômicas ao longo da projeção, como na deslocada cena em que o suíço vai almoçar pela primeira vez na casa de Freud, em Viena. Simples isca para risos fáceis, sem nenhuma importância dramática. Já nas piadas freudianas, o propósito parece ser ridicularizar os princípios psicanalíticos mesmo.

Junto com as belas locações e uma cuidadosa direção de arte, os atores são mesmo os grandes acertos do filme. Michael Fassbender, que ganhou projeção ao viver Magneto em X-Men: Primeira classe, se sai muito bem mais uma vez e mostra que é um nome que está se firmando. Provavelmente deve abocanhar vários personagens excelentes daqui pra frente. Apesar de resvalar na caricatura, até por conta da diferença de idade com seu personagem, Viggo Mortensen, em sua terceira parceria com Cronenberg (Senhores do crime e Marcas da violência) também convence. Já Vincent Cassel, mesmo numa pequena participação de luxo como Otto Gross, diverte. O que não dá para entender é a escolha de Keira Knigthley para um papel tão complexo. Seu tipo esguio e seu sotaque podem cair como uma luva em damas de época, mas basta exigir um pouco mais de técnica e emoção que sua fragilidade fica aparente. Uma pena, já que Sabina é o centro de todas as ações importantes do filme. 

Que o próximo trabalho de Cronenberg venha com mais ousadia.

Festival do Rio 2010: pra não dizer que não falei dos filmes

É, o Festival do Rio já acabou e provavelmente ninguém fala mais disso, mas eu não podia deixar passar batido os outros filmes que consegui assistir na minha humilde maratona.
 
O francês MicMacs é um dos meus favoritos. Sabe O fabuloso destino de Amélie Poulain? Então, Jean-Pierre Jeunet é mesmo um cara de estilo. Desta vez não tem romance, mas tem aqueles tipos estranhamente adoráveis (e até alguns atores repetidos), além de um delicioso tom de fábula. Divertidíssimo! Já o italiano La nostra vita é um drama daqueles de fazer você agradecer que a sala de cinema é escura e ninguém precisa ver que você está chorando horrores. Tudo bem, tem lá também seus momentos engraçados, garantidos pelos fofuchos filhos do protagonista., e tem seus clichês, mas comove.
 
Carancho, com meu muso Ricardo Darín, foi o único da mostra Foco Argentina (a que consegui assistir, obviamente) que valeu o ingresso. O chatíssimo Os lábios, com seu tom documental e closes sufocantes, não chega a lugar nenhum. A invenção da carne também não empolga. E olha que eu sou fã do cinema argentino e vou pro festival de coração aberto, disposta a ver filmes mais contemplativos, e tal, mas desta vez foi experimentalismo demasiado para mim. O longa de Pablo Trapero (que vai concorrer ao Oscar, tentando repetir a façanha de Juan José Campanella com O segredo dos seus olhos) é mais comercial sim, mas traz bons personagens e um clima bem de submundo, sem mocinhos e bandidos, com gente que quer se dar bem, sem se importar com as consequências dos seus atos. Boas atuações e um final de tirar o fôlego.

O terror uruguaio La casa muda parte da premissa de nove entre dez filmes do gênero: mortes em uma casa pra lá de suspeita. Mas o interesse pela obra cresce ao descobrirmos que ela foi baseada numa história real, foi filmada com uma câmera digital emprestada em uma tomada única, e o diretor Gustavo Hernandéz teve orçamento de apenas seis mil dólares. O desfecho pode agradar ou não, mas dá pra levar uns bons sustos. The killer inside me, por sua vez, que tinha me chamado a atenção no trailer, decepcionou um pouco. Kayky Brito, digo, Casey Affleck continua péssimo ator e não consegue variar muito as expressões diante de um excelente personagem: um xerife de uma cidadezinha do interior que comete assassinato atrás de assassinato para limpar a sujeira anterior. Papel que renderia uma indicação ao Oscar na certa para alguém mais talentoso. Pena.

Dos brasileiros, além dos que já foram comentados no último post, vi Malu de bicicleta, uma comédia romântica simpática, e A suprema felicidade. No filme de Arnaldo Jabor, o roteiro é o que menos importa. O bom é ficar babando nas interpretações estupendas do elenco, em especial Marco Nanini, ótimo como sempre e dono das melhores frases, como "Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre" e "A vida gosta de quem gosta dela". Mariana Lima, sumida da TV, Dan Stulbach e Tammy Di Calafiori também merecem destaque. Já Jayme Matarazzo, apesar de honesto, ainda precisa amadurecer muito, principalmente para o papel de protagonista.

Grandes ausências do meu festival: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, Scott Pilgrim contra o mundo, Machete, Somewhere, Dois irmãos e Rubber (é, a sinopse do pneu assassino me deixou curiosa, mas...). Em breve num post perto de você.

Festival do Rio 2010: realidade x ficção

Eu sei, estava devendo um post sobre o Festival do Rio. Não estou mais. Foi dada a largada :)

Se o grande trunfo de VIPs é Wagner Moura, o de Histórias reais de um mentiroso é o próprio Marcelo Nascimento da Rocha, um golpista como eu achava que só Hollywood seria capaz de produzir. As duas obras exibidas no Festival do Rio são sobre a vida do espertinho que se fez passar por dono da Gol no Recifolia, baterista do Engenheiros do Hawaii, olheiro da seleção brasileira e até líder do PCC na cadeia. Mas se o longa ficcional de Toniko Melo diverte, com umas boas tiradas do roteiro aqui e ali e, principalmente, pela atuação do protagonista, o documentário de Mariana Caltabiano (autora do livro que deu origem aos filmes) é simplesmente hilário do começo ao fim. E não é porque a diretora optou por uma edição esperta, narração em primeira pessoa e o largo uso de animações engraçadinhas ou até algumas alfinetadas nos envolvidos na história. O mérito é mesmo a matéria-prima: nenhum roteirista poderia ser tão criativo quanto o próprio Marcelo, um picareta com P maiúsculo, mas dono de uma lábia impressionante.

Marcelo é um cara que adora aparecer. Ele diz que não se arrepende do que fez, e dá pra acreditar pela cara que ele faz ao contar seus causos. Tem ali um misto de orgulho de ter conseguido enganar as pessoas e  o deslumbramento com a fama conseguida com todos os seus golpes. Sem falar que ele tirou muita onda: como policial, piloto (pelo menos isso ele sabia fazer de verdade), artista ou bandido, ele sempre conseguiu, nem que fosse por uns dias, viver uma vida de bacana, por isso o VIPs lá do título. Os depoimentos das pessoas enganadas por ele são de chorar de rir. Só no episódio do Recifolia, Marcelo deu (mais de uma) entrevista ao vivo para  Amaury Jr., dono de um dos maiores micos televisivos de que eu já tive notícia. Ricardo Macchi não só caiu no papo furado do cara, como virou amigo e, involuntariamente, ajudou a passar a mentira adiante.

Como a própria mãe do falsário afirma no documentário: "De dez coisas que o Marcelo diz, 11 são mentiras". Mesmo que tudo seja confirmado por testemunhas, reportagens de jornal e TV, no fundo resta aquela dúvida: será que o que ele está dizendo nesta entrevista é mesmo verdade? Em se tratando de um personagem com um histórico como o dele, a pergunta é mais que pertinente. Imagina se ele não está aumentando uma coisinha aqui, floreando outra ali e até inventando uma história do começo ao fim? Isso me lembrou muito o excelente Jogo de cena, de Eduardo Coutinho. Claro que isso não é voluntário no filme de Mariana. Em nenhum momento, o que ele diz diante das câmeras é questionado pela diretora (que dá uma escorregada feia no final do filme, a meu ver, ao fazer uma ligação forçada de um assunto pessoal ao personagem). Mas que essa pulga atrás da orelha aumenta ainda mais a graça do filme, ah, aumenta.

Outra coisa boa de ter visto o filme foi assistir ao curta exibido antes, Dois mundos, de Thereza Jessouroun, sobre deficientes auditivos que voltaram a ouvir com a ajuda de aparelhos ou implantes. Muito bem feito e conduzido com muita sensibilidade, com ótimos depoimentos como o de um rapaz que trabalha numa boate de transformistas como recepcionista. Seu sonho mesmo era ser artista, dublando as músicas em cima do palco. Mas ele não é um frustrado. "Deus, quando me fez, quis que eu fosse surdo. Mas eu tenho olhos lindos, está ótimo", diz ele. Lindo, não é? Pena que no circuito comercial ainda não adotaram esse sistema de curta + longa. Daria muito mais visibilidade a novos diretores que estão surgindo por aí.

Esta foi a edição do Festival a que assisti mais documentários, e gostei da experiência. Vou adotar daqui pra frente. Outro da leva foi o alemão Rock Hudson - belo e enigmático, de Andrew Davies e André Schäfer. Confesso que só vim conhecer o ator graças ao filme Tudo que o céu permite, que vimos semana passada no DVD, sofá e pipoca. Apesar de resvalar em muitos momentos no sensacionalismo, foi interessante para mim, que não conhecia nada sobre o artista. O filme conta um pouco de sua carreira, mas foca mesmo em sua vida pessoal: homossexual não assumido, ele morreu aos 60 anos,  em 1985, vítima de complicações da AIDS, numa época em que a doença era sinônimo de morte. Um dos grandes ídolos de Hollywood na chamada Era de Ouro, na década de 50, Hudson foi a prova de que o preconceito não escolhe suas vítimas. Entre outras histórias, ficamos sabendo que nem as enfermeiras queriam encostar nele e que uma amiga teve que fretar um 747 para levá-lo da França, onde estava sendo tratado, aos EUA. Triste, mas é verdade.

Já É Candeia, de Márcia Watzl, foi uma decepção. A sensação que eu tive ao sair do cinema, foi de que eu só tive informações de segunda mão sobre o sambista. Explico: grande parte do documentário retrata os bastidores e a encenação do musical "É samba na veia", sobre a vida e a obra do artista. Todas as músicas executadas são interpretadas pelos atores durante a peça. Os únicos não envolvidos com o espetáculo que foram entrevistados foram seus filhos. Oi? E cadê os portelenses ilustres? Os compositores da antiga? Gente que conviveu com Candeia, que tem histórias a contar? Imagens de arquivo, então, nem pensar. Material pobre, edição preguiçosa, o resultado é um filme fraco, que ficou devendo muito à memória do homenageado.

Festival do Rio 2009: Bastardos inglórios

Encerrando minha (enxuta) lista do Festival este ano, uma grata surpresa: não é que o filme do Tarantino superou minhas expectativas? Eu sou fã dele, mas pelo trailer não dava pra saber que seria tão bom. Esperava mais violência gratuita e menos refinamento. Mas o roteirista/diretor nos brinda com pelo menos duas sequências brilhantes de diálogos tensos, uma logo ao início do filme, e outra envolvendo alguns membros dos Bastardos Inglórios, uma espiã e um oficial da Gestapo. De tirar o chapéu.

Festival do Rio 2009: Coco antes de Chanel

Cinebiografias são sempre uma incógnita. Na verdade, elas dependem 80% da história do personagem retratado - afinal, é pra isso que a gente vê esse tipo de filme, né? Se tiver muita tragédia, muito drama, muita superação, a chance de agradar às plateias é enorme (e os atores principais ainda garantem, pelo menos, uma indicação ao Oscar, vide Ray e Piaf, por exemplo).

Festival do Rio 2009: Eu, ela e minha alma

Eu gostava bem mais do outro título em português, Tráfico de almas. O atual não quer dizer nada com com coisa nenhuma. Implicâncias à parte, gostei do filme, que me lembrou bastante Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Abre los ojos. Todos falam sobre pessoas insatisfeitas ou desesperadas, que procuram uma solução imediata para seus problemas. E em cada um, sempre tem alguém lucrando em cima disso, apresentando uma resposta rápida e prática para as questões que mais nos afligem: a felicidade está ao alcance do cartão de crédito. Não que a nossa sociedade esteja distante disso, só não é tão escancarado. E aí é que está a graça de um roteiro como o de Eu, ela e minha alma.

Festival do Rio 2009: Maradona

Ok, eu não entendo nada de futebol, não me lembro de ter visto Maradona jogar, e acho que essa discussão de quem é o melhor, ele ou Pelé, meio ridícula. Claro que a nacionalidade é que vai contar nessa rivalidade que eu nem sei bem por que existe. Mas ninguém pode negar que Don Diego é uma figuraça. Além de ser falastrão (o que rende boas manchetes), também tem uma história de vida peculiar, por seu envolvimento com drogas, o que quase destruiu sua carreira. Acho que isso já o suficiente para ser um bom material para um documentário, mas o filme de Emir Kusturica sobre o craque não se encaixa bem na nossa ideia de documentário.

Festival do Rio 2009: Abraços partidos

Quem lê a sinopse de Abraços partidos pensa logo num dramalhão. Sente só: cineasta que perdeu a visão e a mulher de sua vida num acidente há 14 anos abandona a carreira, adota um pseudônimo e passa a trabalhar como roteirista. Quando é questionado sobre seu passado, ele revira seu baú de memórias. Mas não precisa ir ao cinema de má vontade. O filme é mais que isso.

Festival do Rio 2009: Julie & Julia

Um aviso: não assistam a este filme na hora do almoço, como eu fiz. Impossível não ficar com fome diante de tantas receitas apetitosas. Mas gostoso mesmo é o filme de Nora Ephron, que consegue ser leve e divertido na medida certa. Poderia até ser um pouco mais curto, mas a duração de 123 minutos não chega a comprometer. É tempo suficiente para aproveitar a atuação (ótima como sempre) de Meryl Streep, que constrói sua Julia de maneira magnífica.

Festival do Rio 2009: Aconteceu em Woodstock

É com grande prazer que inauguro hoje a minha modesta cobertura do Festival do Rio 2009. Modesta porque não vou dar conta de assistir a todos os filmes que gostaria, as usual. Mas, se continuar no ritmo da minha estreia, as próximas semanas prometem, o que é sempre uma boa notícia.

Festival do Rio 2008: acabou-se o que era doce

E eu, que achei que meu festival ia acabar mais cedo esse ano, ainda consegui pegar o fim de semana de repescagem. Ontem, fui ver mais dois filmes no Estação Botafogo. Agora, só ano que vem... :(

Velha juventude

A bomba do (meu) festival. Tinha lido críticas positivas sobre o longa, que estava nos destaques da programação, afinal era o primeiro trabalho do Coppola em dez anos. E ainda tinha o Tim Roth, que eu adoro. A história: professor é atingido por um raio, sobrevive e... rejuvenesce! Com todo o gás, ele enfrenta o dilema de se dedicar ao seu trabalho ou ao seu grande amor. Tá, um bom ponto de partida para uma discussão sobre o tempo, a vida, a velhice, a morte... Pára tudo. Isso NÃO é o filme. 

Pretensioso, Velha juventude não sabe que rumo seguir: flerta com o romance, inesperadamente envereda pelo thriller, passeia pelo realismo mágico e, depois de longas duas horas, não chega a lugar algum. Quer ser poético e profundo, mas não é mais que entediante. Quer discutir vários temas de um fôlego só, mas o péssimo roteiro não consegue dar nenhuma resposta. Só faz confundir e irritar o espectador. O pior é que as críticas que eu li preferiam citar os planos "ousados" e os grandes temas abordados no filme. Só porque tem a grife Coppola? Gente, ninguém está livre de fazer um filme ruim. Deixa o homem trabalhar. Quem sabe no próximo ele acerta.

A onda

Ao menos, o último filme do festival valeu o ingresso. No longa alemão, durante um curso sobre autocracia, professor resolve utilizar um método pouco ortodoxo: em vez de simplesmente falar sobre o assunto, transforma a classe num exemplo vivo do tema. Ele assume o papel de líder e começa a transmitir os valores que regem um governo autocrata: nacionalismo, obediência, disciplina, ordem. A grande maioria dos alunos adere ao movimento, batizado de "A onda". Mas a brincadeira extrapola os limites da sala de aula e acaba fugindo do controle do professor.

O roteiro, baseado em fatos reais, é bem organizado, e a direção, bastante sutil. Da forma como a história é contada, vamos acompanhando passo a passo a evolução do movimento, o entusiasmo dos alunos e sua adesão quase cega a uma causa que nem mesmo existe, que foi inventada, mas que eles assumem como sendo uma nova identidade. Dá pra termos a noção de que a autoridade desmedida é tão perigosa quanto a obediência irrestrita, e fica claro desde o início que a iniciativa não teria boas conseqüências. O elenco, em sua maioria jovem, dá conta do recado, e o resultado é um filme que faz pensar.

Festival do Rio 2008: amor ao cinema

Festival é isso: faz a pessoa cruzar a cidade (literalmente, da Zona Norte à Zona Sul), ficar sem almoço e sair esbaforada para procurar o bendito cinema. Mas eu não reclamo... E dessa vez, tive a ilustre companhia da Fabi, que veio de mais longe ainda.

Rebobine, por favor

Imagine a mistura inusitada: o diretor francês Michel Gondry, de Brilho eterno de uma mente sem lembranças e o comediante americano Jack Black. Alguma idéia do resultado? Pois é, eu também não tinha até ontem à tarde, mas a sinopse tinha me interessado: após destruir acidentalmente o acervo de uma videolocadora, dois amigos tentam consertar o prejuízo refilmando os títulos perdidos. 


É uma óbvia homenagem ao cinema, ainda que de uma maneira torta: em tempo recorde e com poucos recursos, eles têm que se virar e abusar da criatividade. E a dupla vai recriando Os caça-fantasmas, A hora do rush 2, Conduzindo Miss Daisy... Além da caracterização dos atores, os cenários toscos e os defeitos especiais são o destaque. E esses são justamente os melhores momentos do filme.

Entretanto, no geral, a trama é um tanto arrastada, talvez porque o diretor tenha optado por não fazer uma comédia rasgada, o que seria uma ótima solução. Em vez disso, ele insiste num certo lirismo ao tentar contar a história do dono da locadora, que quer preservar a memória do lugar a todo custo, que prefere as fitas de vídeo ao DVD. Acontece que o personagem de Danny Glover acaba deslocado na história, um pouco fora do tom. Comédia bem feita é cinema do bom, sim. Não precisa ter vergonha, seu Gondry.

Festival do Rio 2008: a maratona começou!

Eu sei que estava sumida (não pretendia ficar tanto tempo sem postar, mas andei meio enrolada e, confesso, sem assunto também). Mas sempre quando chega essa época do ano, dou um jeito de voltar a escrever aqui. Não, eu não estou me referindo à primavera (choveu a semana toda!), mas sim às duas semanas mais felizes do ano para os cinéfilos cariocas: o Festival do Rio. Vi dois filmes no sábado à noite, no Roxy, e foi uma moleza pra conseguir ingresso. Até estranhei. A seguir, minhas primeiras impressões:

Segurando as pontas

Com o novo queridinho das comédias americanas, Seth Rogen (de Superbad e Ligeiramente grávidos) e James Franco (o amigo do Peter Parker na franquia Homem-Aranha). O primeiro, conhecia só de nome. Já o segundo me surpreendeu: sem carisma nos filmes do super-herói, não é que ele se mostra muito engraçado na pele de um traficante de drogas doidão? O roteiro do filme é totalmente improvável: um oficial de justiça viciado em maconha presencia um assassinato, mas é visto antes de fugir do local do crime. Sem querer, acaba envolvendo seu fornecedor na história e os dois passam a ser perseguidos por bandidos da pesada. As maiores trapalhadas acontecem durante a fuga dos dois, mas o maior trunfo do filme está mesmo nos seus protagonistas e nos diálogos impagáveis.

(Estréia prevista no circuito: 14/11)

RocknRolla

Filme novo do Guy Ritchie, segue o estilo dos anteriores, com tramas interligadas e edição ágil. Tom Wilkinson é o manda-chuva de Londres e controla tudo e todos com dinheiro, muito dinheiro. Mas ele começa a ter problemas com seu enteado viciado, uns ladrões que fazem uns serviços pra ele e um endinheirado mafioso russo, com quem tenta fechar negócio. A história, cheia de indas e vindas, é conduzida com bom ritmo, apesar dos inúmeros personagens, e as pontas soltas ao longo do filme são bem amarradas no final. Tudo com umas pitadas de humor - britânico, of course.

(Estréia prevista no circuito: 24/10)

p.s.: Dessa vez, meu namorado não reclamou dos filmes. Ainda hoje tenho que escutar resmungos sobre 4 meses, 3 semanas e 2 dias, do festival passado...

Festival do Rio 2007: a saga continua


O segundo fim de semana foi beeem mais produtivo que o primeiro. No sábado, não tive pique, depois de uma noite mal dormida e aula o dia inteiro. Mas no domingo, estava lá, firme e forte. E na segunda, também. Melhor do que o programado.

4 meses, 3 semanas e 2 dias
Pra começar o domingo, um filme nada leve. O longa romeno, premiado em Cannes, trata de um assunto delicado: o aborto. O enfoque é bem interessante - em vez de concentrar a narrativa na jovem que deseja interromper uma gravidez já avançada (como indica o título), quem assume o papel de protagonista é sua melhor amiga, com quem ela divide um quarto numa república de estudantes. É ela quem segura a barra o tempo todo, pega dinheiro emprestado, consegue hotel, faz o contato com o profissional. E a atriz se sai muito bem. O tema do filme é bastante forte, mas é abordado de maneira direta e corajosa.

Uma velha amante
Esse eu fui ver por influência da minha irmã, que queria ver um filme falado em francês. Aceitei ir, sem nem saber direito do que se tratava. É um filme de época, uma intensa história de amor entre um jovem francês, prestes a se casar com outra, e uma espanhola. Nada demais, serviu como passatempo mesmo. Difícil é acreditar que alguém se interessaria por uma mulher esquisita como aquela, mas o ator principal é um espetáculo!

Déficit
Meu segundo longa da Première Latina, estréia do ator mexicano Gael García Bernal na direção. Difícil é definir a história do filme (ou mesmo seu título): jovem reúne uns amigos para um churrasco em sua casa, se interessa por uma das convidadas e faz de tudo para que sua namorada não chegue ao local. Mais ou menos por aí. Algumas cenas são bem engraçadas, mas o filme não diz muito bem a que veio. Valeu mesmo pela presença do Diego Luna no Espaço de Cinema - ele não fazia parte do elenco, estava só como produtor. Fofíssimo, tirou foto com um monte de gente antes da sessão começar.

O banheiro do Papa
Esse entrou na minha lista aos 30 do segundo tempo. Descobri só no domingo que a programação do dia seguinte havia mudado: haveria uma sessão à tarde e eu estava de folga! Nem acreditei. Já tinha lido alguma coisa sobre esse filme, mas não tinha conseguido encaixá-lo na minha agenda. O filme, co-dirigido por César Charlone (fotógrafo de Cidade de Deus), bem poderia ser descrito como "Sou uruguaio e não desisto nunca!". Uma história linda, de gente humilde, que ganha a vida como pode, fazendo contrabando, atravessando a fronteira com o Brasil de bicicleta, sofrendo as maiores humilhações, mas que não perde a esperança. Próximo à visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, os moradores inventam maneiras de ganhar um trocado montando barraquinhas de comida para os visitantes. Beto tem uma idéia diferente: vai construir um banheiro e cobrar pelo seu uso. Mobiliza a mulher e a filha na empreitada e faz milhares de planos com o dinheiro que vai ganhar. Meu filme favorito do festival até agora.

La señal
Dirigido por um ator que eu adoro, o argentino Ricardo Darín (de Nove rainhas e O filho da noiva). Li uma entrevista em que ele dizia que seu longa era um policial noir, justamente porque nuestros hermanos não são lá muito chegados a filmes de gênero. E ele consegue reproduzir bem o clima desse tipo de filme: um detetive, uma mulher misteriosa, crimes, visual soturno. O roteiro não é nenhuma maravilha, diria que falta até um pouco de charme, mas é um bom exercício de estilo. Sem contar que o cinema argentino é meu xodó, não adianta...

E não é que o festival já está acabando? Mas amanhã ainda tenho mais uma sessão, no Odeon. Afinal, Festival do Rio sem sessão no Odeon não tem graça...

Festival do Rio 2007: aquecendo as turbinas

A vontade já existia há algum tempo, faltava só a motivação. E nada melhor do que retomar o blog agora, na época mais feliz do ano para quem gosta de cinema e mora no Rio de Janeiro, época de Festival do Rio! Depois do sofrimento de sempre na hora de escolher os filmes (e, principalmente, lamentar os que não conseguirei ver por causa dos horários impossíveis, ingressos esgotados, imprevistos), enfim, meu primeiro post depois de muito tempo, só para desenferrujar.

Resumo do meu primeiro fim de semana de festival: da série "queria muito ver, mas não deu" teve Sonhando acordado (do Michel Gondry, diretor do lindo Brilho eterno de uma mente sem lembranças), Nome próprio (único nacional de ficção da minha lista) e À prova de morte (do sempre pop Tarantino). O primeiro - confesso que não entendi o porquê - teve duas sessões no micro Estação Ipanema no sábado. Resultado: os ingressos esgotaram super rápido. Os outros dois, perdi porque tive que trabalhar na última hora.

Passemos, portanto, aos filmes possíveis. O primeiro: Um jogo de vida e morte, com Jude Law e Michael Caine. Um dos filmes com maior economia de elenco na história do cinema! Além dos dois já citados, apenas uma pequena ponta do dramaturgo Harold Pinter, também roteirista do longa. Os cenários também são reduzidíssimos (e esquisitíssimos): a ação toda se passa na mansão do escritor Andrew Wyke (Caine), que faz uma proposta indecente ao namorado de sua (ainda) esposa, Milo Tindle (Law). Este quer o divórcio; o outro, um assalto forjado. 

Peraí, eu disse ação? Não, não é bem isso. Eu quis dizer os diálogos. Afiados, sim, mas insuficientes para garantir alguma emoção. Um filme como esse pede atuações fortes, clima tenso. E, definitivamente, não é isso que acontece. Bom uso da câmera e edição precisa costumam ajudar nesses casos, mas a opção de Kenneth Branagh foi fazer quase uma peça filmada (à exceção de alguns poucos takes nada convencionais). O resultado final é bem morno.

O segundo do dia foi o colombiano Satanás. Esse não era minha primeira opção, mas daria pra ver casado com Sonhando acordado. Acabei assistindo pra não perder a viagem. O título sugestivo, a sinopse ("três personagens lutam entre seus desejos e dilemas morais") e a seqüência de abertura indicavam que poderia ser um bom filme. E algumas das histórias contadas são fortes, sem falar nas boas atuações. Parece que agora virou moda esse jeito de contar histórias, a la Alejandro González Iñarritú (Amores brutos, 21 gramas, Babel): não há trama principal, mas diversas subtramas que se entrelaçam em algum momento. Só que, em Satanás, esse é justamente o problema. 

Isoladas, as histórias tinham peso; juntas, acabam perdendo importância diante do final inesperado e assustador (o filme é baseado numa história real, o que eu não sabia). Um dos personagens se torna protagonista de uma hora para outra e o filme assume um significado totalmente diferente do que vinha sendo mostrado até ali. Vendo pelo lado bom: ao menos serviu pra atualizar meu espanhol...