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Em terapia

Eu já decidi: quando crescer, quero ser igual à Martha Medeiros. Não que eu a conheça bem, não sei nada sobre a vida dela, mas isso também não me interessa muito. Só quero escrever como ela. Sua coluna na Revista O Globo é leitura obrigatória pra mim aos domingos. E olha que aos domingos dá aquela preguiça de ler jornal... É incrível como ela sempre tem uma observação inteligente pra fazer sobre algo completamente banal ou sobre um livro bacana que ela está lendo (ela sempre está lendo um livro bacana e aí eu fico me perguntando por que eu perco tanto tempo vendo televisão).

Auto-análise

"E o nosso lado serial killer, marilyn monroe, al capone, simone de beauvoir, ku klux klan? Para onde vai tudo o que a gente pensa e reprime, tudo que a gente ouve e estoca, tudo que a gente lê e compreende, tudo que a gente vê e não toca?" (Trecho do livro Divã, de Martha Medeiros, editora Objetiva)

Um chute: a internet.

Quem lê sabe mais

A Rapha ainda não sabe, mas eu odeio correntes. Quebro todas que me mandam, tem até uma comunidade no Orkut pra isso e (adivinhe!) eu faço parte dela. Mas ela deu sorte que eu estou boazinha e vou escrever o meme que ela me mandou lá no blog dela. A idéia é a seguinte: escrever sobre os cinco livros que eu mais gostei e o que eu mais odiei. Descobri que não é tão fácil quanto parece.

Top 5

Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Escolhi esse, mas poderia ter citado qualquer um do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Afinal, essa foi a minha primeira paixão por literatura. Adorava todas as aventuras dos personagens, em especial a Emília. Quando ela abria a sua "torneira de asneirinhas", dizia as coisas mais inteligentes (e divertidas) do mundo. Ainda tenho uma coleção inteira lá em casa. Não cheguei a ler todos, mas lembro que emendava um livro no outro. Também adorava Os doze trabalhos de Hércules, mais aí a lista passaria a ser Top 6, 7, 8...

Harry Potter, de J.K. Rowling. Impossível não falar no bruxinho, que foi uma das minhas mais recentes obsessões. Comecei a ler com uns três anos de atraso e viciei. Lembro que teve dias em que eu nem queria sair de casa antes de saber o que ia acontecer no próximo capítulo! Eu simplesmente não conseguia! Como a Fabi, também gosto muito da trama do terceiro, mas acho que a partir de HP e o cálice de fogo, a história ficou mais sombria e Rowling passou a escrever bem melhor. (Lembrei agora que a leitura do sétimo ainda está pendente e estou devendo um post sobre isso. Melhor pular para o próximo livro)



Crime e castigo, de Fiodor Dostoiévski. Esse eu li não faz muito tempo. Peguei um exemplar bem velho numa biblioteca, ao acaso, e comecei a lê-lo durante as longas viagens entre casa e trabalho. Li pela curiosidade, por se tratar de um clássico, e não imaginava que fosse mexer tanto comigo. Achei a tradução bem ruim e não conseguia decorar aqueles nomes complicados. Mesmo assim, é impressionante ler um relato de um crime e acompanhar a trajetória do assassino, com todas as suas idas e vindas psicológicas. E olha que estamos mais do que acostumados a ver crimes nas páginas dos jornais. Bom saber que a nossa sensibilidade ainda não foi pro espaço.

Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Eu adoro esse autor. Acho suas histórias fantásticas, criativas, originais. Sombrias, é verdade, mas sempre muito interessantes. Li alguns de seus contos numa coletânea há algum tempo e fiquei apaixonada. Bem depois, passeando numa livraria descobri essa antologia, organizada pela Clarice Lispector.






Poemas escolhidos, de Fernando Pessoa e heterônimos. Esse eu já comentei em sala, né? :P








And last, but not least...

Taí, penei pra achar um livro que eu odeie. Isso porque se eu não gosto da leitura (ou não tenho paciência pra ela), simplesmente abandono o livro. Mas serve um que tenha me decepcionado?

Murder on the Orient Express, de Agatha Christie. Esse foi o primeiro livro que li em inglês. Tinha uma edição bem velha lá em casa e sempre batia aquela vontade de ler, mas nunca me achava preparada. Até que um dia, encarei o desafio: achei melhor não consultar o dicionário a toda hora para não atrapalhar a leitura e segui até o fim, aos trancos e barrancos. Fiquei orgulhosa de mim mesma. Ao mesmo tempo, quebrei a cabeça para descobrir o tal do assassino. Só que o final é uma tremenda decepção. Original, dirão alguns. Pra mim, totalmente frustrante.

À moda antiga

Quando foi a última vez que você escreveu uma carta? Pois é, eu também não lembro. Receber, então, só contas. Minto. Há uns meses minha mãe avisou: "Chegou carta pra você". E eu, pensando com meus botões: "Deve ser a fatura do cartão de crédito". Não era. Era da minha tia, que atualmente mora em Londrina. No meio de uma mudança, ela achou um papel em que eu escrevi quando era bem pequenininha, devia ter uns quatro ou cinco anos. Agora me fugiu o texto, mas era uma frase completa! O papel, amarelado que só ele, dedurava o tempo transcorrido. Achei o máximo. Tanto por ver minha letra de criança quanto por receber uma carta endereçada a mim. Coisa que eu achava que só meu banco e as malas diretas da vida fizessem.

Pois bem, comecei esse papo todo porque acabei de ler o livro "Tudo que eu queria te dizer", da Martha Medeiros. Só conhecia a escritora gaúcha pelas colunas dominicais no Globo, mas acho o texto dela muito bom, sem contar que ela sempre tem uma coisa interessante a dizer, mesmo sobre as coisas mais banais. O livro é formado de pequenos contos, na verdade cartas, escritas por personagens diferentes para destinatários diferentes, sem relação entre eles.

O formato é bem simples, mas é incrível como a palavra escrita tem força. Em cada carta, tem uma pessoa exposta, suas dúvidas, seus anseios, seus medos. Pode ser que, na vida real, ninguém se abra tanto ao escrever para alguém. Mas este é só o pretexto ideal pra Martha se colocar no lugar de cada personagem, dizer suas verdades, coisas que nem sempre fazemos. Em tempos de email, em que a gente diz apenas o básico, em geral cheio de abreviações, por ser mais prático, é cada vez mais difícil sermos tão sinceros, explícitos, profundos, trágicos. Dramática, eu? É que estou escrevendo, não estou? :)

Atualizando...

O código Da Vinci: demorei séculos pra ler e, não, ainda não vi o filme. Mas já nem tenho tanta expectativa. Na verdade, até me decepcionei um pouquinho com a história, eu já sabia mais ou menos do que se tratava (o livro foi comentado à exaustão em todos os jornais, revistas e rodinhas de conversa) e a trama nem era isso tudo. Sem contar que alguém disse para o Dan Brown que ele era bom escritor e ele acreditou - algumas passagens eram tão bregas que davam vergonha. Enfim, matei a curiosidade: menos um na minha lista.




Cinema: é, eu fiquei devendo comentários. Logo em julho, mês de férias escolares (e, por tabela, de muitas estréias de blockbusters), não consegui ver vários dos filmes que eu queria: Os sem-floresta, Superman - o retorno, Piratas do Caribe 2. E o Anima Mundi, então, passou em branco esse ano... Bom, julho ainda não acabou, prometo que vou correr atrás do prejuízo. Enquanto isso, na medida do possível, vou atualizando minha lista aí ao lado.

Música: acho que nunca disse isso aqui, mas sou viciada em comprar CDs. Mania mesmo, não resisto ao passar perto das Lojas Americanas! Pois bem, minhas mais novas aquisições foram o Fijación oral, da Shakira (La tortura é simplesmente maravilhosa) e You could have it so much better, do Franz Ferdinand. Desses últimos eu só conhecia Take me out, que tocou à beça nas rádios. Mas assisti à apresentação deles na abertura do show do U2, em São Paulo, e gostei dos caras. Por falar em U2, comprei também o DVD Vertigo, mas ainda não consegui assistir. Tão bom aquele show... Mas pelo que li no Globo Online, melhor ainda vai ser o do encerramento da turnê, que terá a participação de nada mais nada menos que... Pearl Jam! Imagina, minhas duas bandas favoritas juntas no mesmo palco! Ai, ai...

Quando o passado bate à porta

O caçador de pipas, do afegão Khaled Hosseini, é um livro de memórias. Ficcional, mas bem que poderia ser autobiográfico. A cada página, o protagonista Amir narra suas lembranças como quem revira um baú antigo. Diante dos nossos olhos, surgem as ruas da cidade de Cabul de 1975, quando ele era apenas um menino de doze anos. Mas, numa tarde de inverno, acontece algo que vai marcá-lo para sempre. E mesmo agora, quase trinta anos depois, seu passado continua a atormentá-lo.

Hoje casado, escritor bem-sucedido, Amir adota os Estados Unidos como seu novo lar. Até que um telefonema lhe dá os motivos que faltavam para enfrentar seus medos. "É possível ser bom de novo", é o que ouve de um velho amigo. Seria uma chance de recuperar sua paz de espírito? Uma oportunidade de curar as feridas que nunca cicatrizaram?

Órfão por parte de mãe, Amir sempre se esforçou para corresponder às expectativas de seu pai, que não aceitava a covardia do filho nem entendia seu interesse pelos livros. O campeonato de pipas que se aproximava seria a chance de Amir conquistar a admiração que nunca teve. Bastava que ele mantivesse sua pipa no céu por mais tempo que as outras. Cortar a última delas e levá-la para casa seria seu grande feito. E Hassan, seu criado e também seu melhor amigo, foi buscá-la. Afinal, ele era bom nisso, o melhor de todos os caçadores de pipas. E sabia o quanto aquele troféu era especial para Amir: "Por você, faria isso mil vezes!".

Tudo muda, porém, a partir daquela tarde de inverno. Uma atitude transforma para sempre o destino dos dois meninos - um erro pelo qual Amir não consegue se perdoar e só vai ter a chance de reparar muito tempo depois, ao encontrar o menino Sohrab, um pedaço vivo do seu passado. Nesse retorno à sua Cabul natal, 26 anos mais tarde, Amir se sente um turista em sua própria terra: encontra um Afeganistão completamente devastado pela guerra e dominado pelo regime tirânico dos talibãs.

Ao mesmo tempo em que consegue dar nomes e rostos (ainda que imaginários) para as vítimas de uma violência que já dura décadas naquele país, O caçador de pipas é uma história forte e dolorosa. Uma história de pecados que não são perdoados, de amizades que não são abaladas, de distâncias que não são superadas: entre pessoas, lugares, culturas. Distâncias entre o menino e o adulto, entre o passado e o presente. Distâncias no tempo e no espaço.

p.s.: Blog é bom por isso, né? Essa resenha aí em cima ia entrar (numa versão ampliada) no jornal que a minha turma de jornalismo cultural na ABI está preparando. Mas não tinha espaço, entrou só a matéria sobre o livro. O jeito foi arrumar um cantinho pra ela aqui...

O sexto livro

Eu ia dizer que não deixei nenhuma leitura pendente para 2006, mas não é verdade. Pelo menos diminuí minha lista na última sexta-feira: terminei de ler Harry Potter e o príncipe mestiço. Não sei se isso me deixa alegre ou triste.

Primeira diferença deste para os dois anteriores: não há ação o tempo todo. O sexto ano em Hogwarts funciona como um período de preparação para Harry até o combate final com Voldemort. Talvez por isso não tenha achado este livro sombrio, como andaram dizendo. Fiquei até apreensiva quando li isso, quer dizer, achei que não poderia piorar ainda mais. Mas, no fim das contas, não fiquei tão chocada com os acontecimentos finais. Já suspeitava que fosse acontecer. Só não sabia quem seria o responsável... Aliás, pode ser que eu me engane, mas acho que vai haver uma justificativa pra isso no sétimo livro.

Como faz tempo que li A Ordem da Fênix, tive que me esforçar pra lembrar alguns detalhes, como a AD, o FALE, a profecia. Na verdade, não me lembrava de muita coisa além da morte de (ah, não quero estragar a surpresa de quem não leu) um dos personagens. No entanto, J. K. Rowling conseguiu avançar na história e, ao mesmo tempo, relembrar sutilmente certas passagens importantes. E o que é mais importante, sem ser chata. Ela cita algumas coisas, assim como não quer nada, e a gente acaba puxando pela memória. Funcionou.

Aliás, O príncipe mestiço é, na minha opinião, o mais bem escrito da série até agora. Os personagens estão mais complexos, têm dúvidas, erram. Harry e seus amigos estão amadurecendo. Além disso, Rowling aprendeu a ser mais objetiva. Nos três primeiros livros, confesso que achava um pouco maçante aqueles verões na casa dos Dursley, aquelas descrições intermináveis para tudo. Melhorou muito.

O sexto livro é também o mais adolescente de todos: boa parte da história tem a ver com a vida amorosa dos personagens principais. Fofo, divertido e bem realista. Minha passagem preferida é a da poção do amor, simplesmente hilária! Eu devia parecer uma doida rindo sozinha no ônibus...