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Oscar 2015: Boyhood

Indicações: filme, diretor, atriz coadjuvante (Patricia Arquette), ator coadjuvante (Ethan Hawke), roteiro original e edição


Não entendo quando alguém (a minoria, felizmente) diz que Boyhood não é nada demais ou não tem história. Talvez o filme mais sensível da temporada, o longa de Richard Linklater merecia um pouco mais de consideração por parte do público. Não só pela originalidade do projeto como por sua execução impecável. 

Em primeiro lugar, não, a proposta de se filmar os mesmos atores ao longo de 12 anos não pode ser desvinculada do resultado final. Isso faz parte da concepção da obra e acrescenta significado: ou você não acha que as transformações físicas e emocionais do elenco não acrescentaram nada às suas performances? Seus questionamentos e vivências e mudanças de opinião não trouxeram camadas extras aos personagens? Sim, trouxeram. E rodar por três meses seria uma escolha muito mais prática do que por mais de uma década, com todos os percalços e imprevistos que um período tão longo implica - se não fizesse diferença, estejam certos de que seria a decisão mais sábia.

Mas se esse aspecto é o que logo chama atenção ao se falar do filme, o conteúdo é outra agradável surpresa. A proposta de Boyhood é acompanhar o crescimento de Mason (Ellar Coltrane) desde a infância até o início da fase adulta, tarefa tão simples na aparência quanto difícil na essência. Todos os questionamentos vividos pelo rapaz são capazes de provocar imediata identificação, por mais diferente que seja a experiência de cada espectador. 

A relação de implicância com a irmã, Samantha (Lorelei Linklater), de amor com a mãe (Patricia Arquette), de distanciamento e fascínio com o pai (Ethan Hawke), e de aceitação com o padrasto,  que vão se modificando com o tempo. A necessidade da independência. Os questionamentos sobre o futuro. Os ressentimentos. Os relacionamentos amorosos. A escolha do próprio caminho. A consciência do amadurecimento.

Cada tema que vai surgindo na tela segue um ritmo fluido e, à medida que vamos enxergando na tela a mudança das feições de cada um dos atores, somos capazes de reconhecer também as transformações pelas quais passamos ao longo da vida. Uma sequência que se destaca é a da personagem de Arquette ao se dar conta da mudança do filho para a faculdade: naquele momento irreversível, ela passa sua vida inteira em revista e se emociona ao perceber a dura passagem do tempo. 

A performance da atriz durante todo o longa, aliás, é memorável. Subestimada no cinema, ela encara com coragem um papel difícil: a mulher doce e dependente, que faz algumas escolhas erradas na tentativa de acertar. Sua jornada mostra diferentes fases, todas defendidas com sinceridade, coisa bonita de se ver. Ethan Hawke, parceiro de Linklater na trilogia Antes do Amanhecer, tem menos tempo de tela, mas não desperdiça nenhum segundo: com seu carisma, ele transforma o pai ausente num dos personagens mais adoráveis do filme. Ellar Coltrane e Lorelei Linklater, por sua vez, demonstram uma segurança pouco comum para atores tão jovens. E fica óbvia a participação do diretor nesse processo, porque é preciso sensibilidade para perceber o potencial de momentos tão singelos numa história tão comum, no bom sentido. Sorte nossa que isso não faltou em Boyhood.


Oscar 2015: Birdman

Indicações: filme, diretor, ator (Michael Keaton), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Emma Stone), roteiro original, fotografia, edição de som e mixagem de som


Arrisco a dizer que todo ano o Oscar deveria ter o seu Birdman. Aliás, todo ano o cinema deveria ter o seu Birdman. É daqueles filmes que dividem opiniões - os que apreciam a ousadia e os que torcem o nariz para a proposta diferente. É daqueles filmes que provocam - na forma pouco usual, no conteúdo metalinguístico e crítico até o talo. É daqueles filmes que têm o que dizer mas, ao mesmo tempo, não se levam muito a sério. É daqueles filmes sobre o qual vamos falar sobre um bom tempo, enquanto outras dezenas (talvez até premiadas) cairão no esquecimento e na irrelevância. Pelo menos é o que eu espero.

Já na primeira cena, o longa de Alejandro González Iñárritu flerta com o surrealismo, ao mostrar o protagonista flutuando (de cueca, vejam bem) dentro de seu camarim. O estranhamento segue durante toda a projeção, enquanto nos perguntamos seriamente se Riggan (Michael Keaton) ouve vozes ou é mesmo capaz de conversar com Birdman, seu personagem mais famoso nos cinema (e seu alter ego nas horas vagas). 

Único papel de sucesso na carreira de um ator em decadência, o super-herói não surge impunemente na história neste momento em que as bilheterias dos Estados Unidos (e do resto do mundo, por que não?) só tem olhos para franquias adaptadas dos quadrinhos. A graça só aumenta por trazer Keaton no papel: intérprete do Homem-Morcego nos Batman de Tim Burton, ele não tem exatamente vários sucessos em sua carreira recentemente.

A busca pelo sucesso fácil, programa certo na agenda de produtores gananciosos e artistas preguiçosos, parece tão patética quanto o desespero do protagonista, que luta para montar um espetáculo e conseguir algum respeito dos críticos. Não que os críticos do filme sejam pessoas que mereçam qualquer credibilidade: são pessoas frustradas, impiedosas e arrogantes, você sabe. Todo o esforço de Riggan, no entanto, parece ser recompensado quando ele encontra Mike (Edward Norton), um ator motivado e talentoso de verdade. Mas eis que as palmas da platéia encontram outro dono e tudo vai por água abaixo, de novo. 

Acompanhar as idas e vindas emocionais e intelectuais dos personagens é um desafio, e a câmera sempre em movimento e a edição fluida do filme, quase um enorme plano sequência, nos dão a eterna sensação de percorrermos um enorme labirinto. A sensação de um tempo bem próximo do real aumenta a noção de urgência que permeia todo o filme: a peça vai estrear, o ator não vai aparecer, Riggan vai perder a sanidade, vai cometer um ato impensável. Iñárritu comanda com maestria o espectador por esses túneis que conectam ficção e realidade, vida íntima e vida pública, arte e show business.

O longa nos brinda com sequências hilárias como a que o protagonista percorre a Broadway de cueca e a briga entre Mike e Riggan; emocionantes como as francas conversas com a filha e a ex sobre o que a vida poderia ter sido e não foi; intrigantes como os confrontos entre Birdman e seu intérprete. Keaton está seguro em cena e entrega uma atuação sincera em todas as nuances do personagem, que entra em depressão com a mesma velocidade em que embarca numa egotrip. 

Norton está divertidíssimo como o artista meio sem noção meio sem escrúpulos, que não se importa em roubar a cena para garantir seu lugar ao sol. Os dois se destacam, mas Zach Galifianakis, Emma Stone e Naomi Watts seguram bem as pontas nos papéis secundários, dando consistência ao filme. O filme de Iñárritu talvez seja um sinal de que os astros de Hollywood precisem dar mais ouvidos para seus Birdmen interiores.

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Oscar 2015: Whiplash

Indicações: filme, ator coadjuvante (JK Simons), roteiro adaptado, edição e mixagem de som


Desde sua primeira cena, Whiplash deixa clara sua proposta: construir um duelo direto entre um jovem aspirante a músico e um exigente professor. No entanto, à medida que o filme avança, a dinâmica entre eles se distancia cada vez mais da relação pupilo-mestre que se costuma ver em longas do gênero. Em vez de simplesmente inspirar, Terrence Fletcher (JK Simons) provoca o jovem Andrew (Miles Teller) até o limite, numa relação que mais lembra um treinamento militar que um aprendizado artístico. E é na alternância entre essas duas forças, apoiadas por duas grandes interpretações, que está o grande trunfo da produção.

Talvez a principal característica que salva o filme de cair no lugar comum seja a ambição de Andrew. Se fosse apenas um gênio incompreendido em busca da grande oportunidade, a história perderia muito em relevância. O rapaz tem talento, assim como muitos de seus colegas, mas se distingue não só pela determinação: ele não quer ser apenas bom, quer ser o melhor. Diz isso com todas as letras, busca isso todos os dias, para se tornar alguém memorável e nunca mais ser deixado de lado nos jantares da família. 

Em busca do sucesso, resolve abrir mão até do recente e promissor namoro com Nicole (Melissa Benoist) para se dedicar 100% ao jazz. A cena do término, aliás, merece destaque pela franqueza e até frieza do protagonista: ele está disposto a tudo para se destacar na carreira, doa a quem doer.

E por falar em dor, o baterista conhece bem o assunto. Além de dar o sangue, literalmente, em exaustivos ensaios, Andrew enfrenta situações bem mais difíceis no âmbito psicológico. Humilhação pública, tortura psicológica e até violência física são os recursos empregados por Fletcher, professor talentosíssimo e muito conceituado que, após alguma resistência, aceita o jovem em sua banda. 

O diretor e roteirista Damien Chazelle diz que se baseou numa experiência própria, que vivenciou enquanto estudava jazz numa renomeada escola americana. Segundo o cineasta, seu objetivo era discutir até que ponto uma atitude tão, digamos, enérgica, poderia ser produtiva ou prejudicial. 

Embora tente equilibrar os dois pontos de vista e até flerte com uma crítica ao método pouco ortodoxo do mestre, ao apresentar as dramáticas consequências na vida de um ex-aluno, o filme tem, afinal, um vencedor. A teoria de Fletcher, de que vale tudo no combate à mediocridade, parece prevalecer no fim, reforçando a ideia de que só é possível alcançar a perfeição na base do bullying. E está aí a sequência final para corroborar essa ideia. Ressalvas à parte, não se pode negar que os embates entre professor e aluno são o ponto alto do filme. 

Ponto para a firme direção de Chazelle (também diretor de fotografia e responsável pelo estilo visual apurado do longa, com seus closes precisos e movimentos de câmera significativos) e para os atores. Teller, ainda um ator desconhecido do grande público, tem aqui chance de brilhar antes de se lançar em obras mais populares como o novo Quarteto Fantástico, que pode deslanchar sua carreira. Já Simons, um ator quase sempre relegado a papéis menores, ganha um personagem a sua altura e domina a cena toda vez que aparece. Neste duelo, só há vencedores.

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Oscar 2015: Sniper Americano

Indicações: filme, ator (Bradley Cooper), roteiro adaptado, montagem, edição de som e mixagem de som


Filmes de guerra precisam de uma boa razão para serem feitos ou viram puro panfleto ideológico. Mostrar o horror dos conflitos e os efeitos psicológicos de uma experiência traumática são bons exemplos, e Sniper Americano atira (com o perdão do trocadilho) em ambos. Mas não acerta nenhum. A história de Chris Kyle, considerado o atirador mais letal da história da marinha americana, sofre com essa falta de definição e não consegue formar um retrato mais contundente do personagem. A crítica velada ao patriotismo cego acaba anulada pelos elementos que exaltam o herói. Neutralidade intencional? Talvez, mas uma pergunta não me sai da cabeça: o que faz de Kyle um herói maior que seus companheiros?

Uma cena rápida do filme talvez contenha a "resposta": ao cruzar com o irmão, recém-convocado para a guerra, antes de voltar para uma de suas missões, o protagonista se mostra surpreso e até chocado ao ver que o caçula não queria ir. Pelo contrário, estava com medo, com raiva. O sniper não tinha dúvidas de seu propósito. O roteiro, aliás, deixa de lado a sutileza e afirma que seu comportamento é fortemente influenciado pela visão do pai, que ensina aos filhos que as pessoas se dividem entre indefesas ovelhas, lobos malvados e cães pastores, cuja função é proteger.

Sem direito a escolha, Kyle fica com a última opção - embora, curiosamente, tenha tentado a vida como caubói para conquistar mulheres num primeiro momento. Motivado por um ataque à embaixada americana e com a vida meio à deriva, decide se juntar às forças armadas. Em pouco tempo, ainda em sua primeira missão no Iraque, torna-se O Mito, pela exímia pontaria e pelo número de vítimas. Ganha o respeito e a admiração dos colegas, mas se transforma também em um estranho em casa. 

Seu lugar de conforto é na batalha, onde, tal qual um robô, repete infinitamente que deseja salvar a vida dos companheiros. Enquanto não está lá, não consegue se dedicar à mulher, Taya (Siena Miller), e aos filhos. E é aí que ele se diferencia de tantos veteranos com estresse pós-traumático já retratados no cinema. Enquanto, normalmente, ex-combatentes precisam se livrar dos fantasmas para retomar a rotina, ele não quer nada disso. Somente sente ansiedade e impotência por não poder se juntar a seu pelotão.

O sofrimento da família é o único contraponto que sugere algum tipo de egoísmo do protagonista. Mas é possível que os americanos mais patrióticos possam enxergar justamente o contrário e culpar Taya por reclamar tanto da ausência do marido. No entanto, o discurso do atirador apenas repete a lógica (?) da guerra: salvar, eliminar o inimigo, proteger o "melhor país do mundo", como ele afirma a certa altura. 

Já os iraquianos são homens quase sem história, sem nome, sem família, são ameaçadores, perigosos, impiedosos. São os outros. Então a decisão de matar só é difícil quando se trata de uma mulher ou uma criança? O filme cai nessas armadilhas, que são um desserviço para uma cultura extremamente bélica como a americana e que se estende por outros países também.

Fora isso, no que se refere à construção da narrativa, o longa consegue construir bons momentos de tensão e fortes sequências dramáticas, com Siena Miller e Bradley Cooper bastante inspirados. E aqui cabe um comentário sobre terceira indicação seguida do ator, não muito respeitado pelos críticos e mais identificado com as comédias e produções românticas. Cooper é um ator mediano, que definitivamente não merecia ser indicado pelo pretensioso Trapaça ou pelo irregular O Lado Bom da Vida. Mas aqui, sob a batuta de Clint Eastwood, se sai muito bem, sem apelar para exageros, e contrói um Chris Kyle contraditório e crível.

O fato de Eastwood ter assumido a direção após a saída de Steven Spielberg do projeto, por conta do modesto orçamento da produção, me deixa com a impressão de que o longa ganhou mais força no lado humano da história, embora as sequências de ação sejam conduzidas com competência. Ainda assim, Sniper Americano fica devendo uma resposta para a pergunta feita no primeiro parágrafo. Porque ser uma máquina mortífera (eficaz, focado e sem medo) não é suficiente para alçar alguém a um posto especial em uma situação como a guerra, onde só existem perdedores.

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Terceira temporada de 'Sherlock': segundas impressões


Sim, eu precisei assistir à terceira temporada de Sherlock mais uma vez antes de escrever esse post. Porque, vocês sabem, esses três últimos episódios foram bem diferentes de tudo que a série vinha apresentando até então, e isso causa um estranhamento natural. Mas a questão fundamental ainda ecoava: trata-se, enfim, de uma boa temporada? À primeira vista, eu diria que não. Agora, minha tendência é ficar com o "sim".

(Milhões de spoilers a seguir)

 Foram dois longos anos de espera. E "The Reichenbach fall" não foi um episódio qualquer: os 90 minutos que precedem a falsa morte de Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) são dos mais interessantes da produção. E é genial como "The empty hearse" brinca com a expectativa dos fãs sobre a resolução do mistério. Talvez os criadores Steven Moffat e Mark Gatiss tenham se deixado levar demais pelo hype que se criou em torno da atração durante o Grande Hiato? Talvez. Mas, além de ser uma referência direta à resposta do público (algo que não me lembro de outra série ter feito), foi bem inteligente. A comédia aliviou a responsabilidade de uma resposta definitiva. Lembram da reação do Anderson (Jonathan Aris) quando ele ouviu a explicação "definitiva" do próprio Sherlock? "Decepcionante". Ao que o detetive prontamente responde: "Todo mundo é um crítico". Que me desculpem os ranzinzas, mas bom humor é fundamental.


Outro ponto controverso do episódio foi o "caso do dia", que recebeu bem menos importância do que de costume. Acho que essa foi minha grande decepção, logo de início. Todo fã de série/filme de investigação quer acompanhar a investigação do enigma (e por que não antecipar a solução?). O raciocínio brilhante de Sherlock só torna tudo ainda mais instigante nesse programa que nos acostumou bem, sempre com casos bem sólidos. Mas, diante de tantas distrações, o tal atentado terrorista em Londres ficou em terceiro plano, o que não deixa de ser frustrante. Depois de rever a temporada, no entanto, fiquei com a impressão de que a dinâmica não poderia ser outra: caso contrário, o principal aspecto desse retorno perderia o destaque. Sim, o reencontro de Sherlock e John Watson (Martin Freeman). Afinal, é a dupla que nos faz voltar à assistir ao programa, não é? De que adianta uma estrutura bem amarrada, diálogos espertos, fotografia caprichada etc. etc. etc., se os protagonistas não nos cativam? E nunca na série foi tão importante que o relacionamento dos dois ganhasse esse destaque.

Vocês se lembram da despedida de Watson no túmulo de Sherlock. Foi de partir o coração. O detetive também se lembra, mas, como ele não tem bem um coração, resolveu fazer piada com o amigo. Quem mais voltaria dos mortos dois anos depois sem dar nenhuma explicação e zombaria do bigode do melhor amigo? E a hilária reação do médico diz muito sobre o que ele passou em silêncio nesse período. Mas agora há uma terceira pessoa que perturba de alguma forma essa relação tão saudável e equilibrada (ok, nem uma nem outra): Mary (Amanda Abbington, mulher de Martin Freeman), a futura senhora Watson. O desenvolvimento dela na série é sutil e, por isso mesmo, incrível: quando nos afeiçoamos a ela, o fim da temporada nos surpreende. E, se você se sentir traído como John, foi porque você também não notou as pistas que estavam lá desde o começo.


O segundo, sem dúvida, é o mais estranho dos três episódios: ambientado exclusivamente no casamento de John e Mary, recorre a constantes flashbacks para montar o caso do dia, que, na verdade são três (que só fazem sentido completamente no desfecho da trama). Definitivamente, alguma coisa está fora da ordem. E a ausência de ligação imediata com o arco da temporada (o anunciado vilão, Charles Augustus Magnussen, vivido por Lars Mikkelsen, foi apenas sugerido no capítulo anterior) causa ainda mais angústia. Minha impressão sobre o episódio só melhorou depois de uma segunda vista, sem a rejeição inicial e já ciente das pistas que se justificam no conjunto da temporada.

Mas ninguém há de negar que apenas o impagável discurso de Mr. Holmes como padrinho já é o suficiente para justificar a existência de "The sign of three". Ele é tão insensível a ponto de preocupar o inspetor Greg Lestrade (Rupert Graves) - e mobilizar a Scotland Yard por tabela - para escrever um simples texto. E tem dificuldade em reconhecer quando está sendo inconveniente ou está insultando alguém (notem-se as caras de constrangimento entre os convidados). Sherlock continua sendo Sherlock, mesmo que em alguns momentos demonstre uma certa empatia com outros seres humanos. Nada grave. Mas se é verdade que o álcool revela o verdadeiro caráter das pessoas, já é possível afirmar que ele é gente finíssima (e muito divertido, mas disso a gente já sabia).


"His last vow" fecha a temporada de uma maneira mais tradicional, com o vilão apresentado de cara e um caso a ser resolvido. Mas a história principal e suas críticas veladas à mídia ("Eu não preciso provar nada, eu simplesmente publico") não me empolgaram tanto, embora o tipo criado por Mikkelsen (irmão do Mads Mikkelsen, de Hannibal) seja bem interessante: as cenas dele lambendo o rosto da vítima e urinando na lareira do apartamento em Baker Street são memoráveis. Entretanto, o que realmente movimenta a season finale é a descoberta de que Mary não é a inocente enfermeira que afirmava ser, mas alguém com um passado comprometedor. A sequência em que Sherlock leva um tiro e raciocina milhões de coisas ao mesmo tempo em poucos segundos já é uma das melhores da série (aliás, é sempre divertido entrar na cabeça dele, como vimos durante o caso "The mayfly man", no episódio anterior). 

Mas é no jogo psicológico entre Mr. Holmes e Mary e no drama envolvendo o casal Watson que está o melhor da história. Pobre John. Ele partiu meu coração mais uma vez ao se esforçar para tratar a mulher, recém-alçada à condição de estranha, como uma simples cliente e me fez chorar (de novo!) ao jogar fora o pen drive que continha as informações sobre seu passado. Quando é que essa série virou um drama? Não me entendam mal, não faltaram momentos engraçados, como Sherlock drogado, envolvido com Janine (Yasmine Akram) ou dopando seus pais (vividos pelos verdadeiros pais de Benedict Cumberbatch). Mas emoção mesmo foi ver o avião do nosso detetive favorito dar meia volta por causa dele. Sim, Moriarty (Andrew Scott), nós sentimos sua falta.

P.S.: por favor, não fiquem tão obsessivos procurando uma explicação para a volta do Moriarty. Lembrem-se do Anderson... 

O triste fim de Dexter Morgan

(Aviso de spoilers. Milhões de spoilers)


A despedida foi melancólica. Se você é persistente como eu e acompanhou Dexter até o fim, é porque ainda tinha uma esperança de um desfecho minimamente satisfatório para a série. Mas o rumo dos acontecimentos nos últimos anos e nesta temporada final, em especial, já nos dava pistas de que não adiantava torcer muito por um milagre. A receita que deu tão certo lá atrás havia mesmo desandado.

A oitava temporada tinha um bom ponto de partida: as devastadoras consequências da morte de LaGuerta (Lauren Vélez), um momento forte que mudaria para sempre a relação entre Debra (Jennifer Carpenter) e o irmão. Ela, uma policial competente e justa, havia cruzado a linha que faltava ao apertar o gatilho para defender Dexter (Michael C. Hall) e acobertar seus crimes. A decisão que ela havia protelado ao máximo foi tomada num momento extremo, em que a emoção falou mais alto. O problema é que isso não seria suficiente para amenizar sua culpa. Depois de um salto no tempo, a série mostrava que Deb reagiu mal a tudo isso: abandonando a Miami Metro, bebendo como se não houvesse amanhã e arriscando a vida a trabalho, agora como detetive particular. Ah, mencionei que ela se afastou do irmão? E boa parte dos episódios seguintes gastou um precioso tempo para mostrar a relativamente fácil reconciliação entre os dois.


A maior pegadinha desta temporada, no entanto, é o surgimento da doutora Evelyn Vogel (Charlotte Rampling). Ela é introduzida na trama como alguém que tem um papel importantíssimo na vida do protagonista: foi ela quem sugeriu a Harry (James Remar) que ensinasse o código ao filho com instinto de serial killer. Seria ela então uma mentora, uma mãe postiça. Embora forçada, a referência à origem de tudo (foi o trauma de ver a mãe assassinada que teria despertado a psicopatia dele) poderia ser interessante. Como também seria se Vogel deixasse de ser uma personagem ambígua para se revelar uma antagonista, que poderia estar manipulando Dexter para conseguir o que quer ou simplesmente horrorizada com a personalidade que ajudou a formar. Criador versus criatura. Taí, eu gostaria de ver esse conflito frankensteiniano como o conflito final da série. 

Mas por que seguir a opção mais simples se podemos trazer mais e mais personagens para serem mortos no caminho? Assim foi com Zach (Sam Underwood), cuja trama foi muito mal aproveitada, com Cassie (Bethany Joy Lenz), jogada como isca no meio da história de forma pouco sutil, com a própria Vogel e... seu filho! Oliver Saxon/Daniel Vogel (Darri Ingolfsson) foi o truque mais barato da temporada (e aqui é clara a sugestão de um outro link com a origem de tudo, Brian Moser, o irmão de sangue de Dexter e o primeiro grande vilão da série). No entanto, adiar a entrada dele até os últimos episódios nos privou de termos um oponente de verdade a maior parte do tempo. Na busca por reviravoltas e surpresas fáceis, a atração perdeu muito de sua força dramática, que sempre foi seu ponto alto. 

É só puxar pela memória para entender que sem Brian, o Ice Truck Killer (Christian Camargo), na primeira, e Lila (Jaime Murray), na segunda temporada, por exemplo, a série não teria alcançado níveis tão elevados de tensão. Mas foi mesmo com Trinity (John Lithgow), no quarto ano, que o programa chegou ao seu auge, numa temporada absolutamente irretocável, com direito ao final mais chocante e doloroso que podia ter. Pena que dali por diante foi ladeira abaixo. O fanatismo religioso e a descoberta de Deb movimentaram um pouco a sexta temporada, e a ameaça de La Guerta sugeriam uma luz no fim do túnel, mas o estrago já estava feito: as tramas e subtramas foram se tornando cada vez mais fracas.


Como se tudo não pudesse piorar, na reta final, os roteiristas resolvem trazer de volta umas das personagens mais insossas da atração, Hannah McKay (Yvonne Strahovski), para um revival romântico pouco convincente com o protagonista. Em vez de se vingar por ter ido para a cadeia por culpa do ex, ela quer que Dexter mate seu atual marido e quer construir uma vida nova ao lado do amado na Argentina (e pelo número de vezes que o país é mencionado nos episódios finais, deve ter rolado um patrocínio do ministério do turismo hermano). Hummm... Dexter comendo alfajor e empanadas no Caminito? Não sei vocês, mas eu não esperava um final assim para ele. Só que podia ser melhor do que foi. A longa despedida de Deb no hospital já dava a dica do que estava por vir, mas nem Shonda Rhimes seria capaz de criar uma situação como aquela: um derrame inesperado e, ainda por cima, uma tempestade. 

Não vou dizer que não foi curioso ver Dexter se emocionar de verdade pela primeira vez antes de matar alguém (e Deb estava imóvel, numa cama, como costumam estar suas vítimas), mas roubar o corpo da irmã e jogá-lo no mar como se fosse o de um criminoso qualquer não fez o menor sentido. Fingir a própria morte e se exilar para poupar o sofrimento das pessoas que ama seria compreensível se ele não estivesse deixando Harrison nas mãos de uma assassina confessa (que anda com uma seringa na bolsa tal qual Lívia Marine) num país estranho. Cada vez mais ligado ao filho, principalmente depois da morte de Rita (Julie Benz), é pouco provável que ele tomasse essa atitude. E a cena final, que deveria transmitir solidão, sofrimento, arrependimento, alívio ou qualquer outro sentimento, não diz nada. Claro, tudo poderia ser bem pior se a série não tivesse um elenco tão talentoso. Mas o fato é que o grande dilema do personagem, desde o início - seria possível para ele ter uma vida normal? - foi respondido da forma mais preguiçosa possível. Como eu disse, a despedida foi melancólica. Mas não do jeito que deveria ser.


P.S.: O melhor comentário que li sobre o fim de Dexter foi esse, do Huffington Post:

If only the producers had dispatched their show with the care their murderous hero showered on his victims.